
O Palácio do Planalto aposta na relação mais próxima entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para tentar frear o avanço do projeto que renegocia dívidas rurais. A proposta foi aprovada no Senado e é vista pela equipe econômica como uma pauta-bomba, com impacto estimado em R$ 140 bilhões nos próximos dez anos. As informações são do jornal O Globo.
A avaliação de aliados do governo é que Motta tem feito gestos ao Planalto e não deve comprar uma briga direta com o Executivo neste momento. Um parlamentar governista afirma que o presidente da Câmara tende a segurar o texto, especialmente em ano eleitoral, quando busca apoio de Lula para a candidatura de seu pai, Nabor Wanderley, ao Senado pela Paraíba.
Apesar da aposta, integrantes do governo admitem que não há garantia de que a estratégia funcione. A bancada ruralista, uma das mais fortes da Câmara, pressiona pela tramitação da proposta. Auxiliares da equipe econômica lembram que a Casa já aprovou medidas de alto impacto fiscal, como a chamada PEC das igrejas e benefícios a agentes comunitários de saúde.

O Planalto também tenta usar o travamento da pauta da Câmara como instrumento de contenção. A urgência do projeto enviado pelo governo sobre o fim da escala 6×1 impede, por ora, o avanço de outras matérias. Motta, no entanto, sinalizou que pretende analisar o tema para destravar o plenário e designou o deputado Leo Prates (Republicanos-BA) como relator.
A tensão ocorre em meio ao distanciamento entre o governo Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após a derrota na indicação de Jorge Messias ao STF. Governistas avaliam que Alcolumbre usou o avanço de pautas-bomba como instrumento de pressão sobre o Planalto.
Após a votação no Senado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo poderá vetar o texto, caso ele seja aprovado pela Câmara, e acionar o Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, a medida não é suportada pelas contas públicas e pode violar a Lei de Responsabilidade Fiscal.
A orientação interna do governo é evitar ataques pessoais a Alcolumbre e insistir no diálogo. Uma ala do Planalto defende que Lula se reúna com o presidente do Senado para reduzir a tensão e tentar recompor a relação com a cúpula do Congresso.
Outro grupo, porém, considera que o encontro só deve ocorrer se houver sinalização concreta de recuo nas pautas-bomba. Para esses aliados, Lula não deve aceitar uma negociação sob pressão enquanto o Legislativo avança com medidas de forte impacto fiscal.