Poderosos chefões: Bolsonaro e Globo darão uma trégua no melhor estilo de guerra da máfia? Por Moisés Mendes

Bolsonaro e João Roberto Marinho

Pode parecer, na briga com Bolsonaro, que os compromissos da Globo são com a democracia, a pluralidade e com as liberdades. Não são. Os compromissos da Globo são com os interesses da Globo, ameaçados como nunca pela ascensão de Bolsonaro.

Por isso é estranha a notícia de que a família Marinho e a família Bolsonaro estariam tentando evitar mais sangue na guerra que travam há mais de dois anos, como costumavam fazer as famílias mafiosas.

Não é um pacto pelo país, mas pela sobrevivência das facções. A Globo e Bolsonaro podem ter chegado à exaustão. Talvez tentem uma pausa, até que as coisas se acomodem e a direita articule um novo acordo, do qual Bolsonaro quer fazer parte.

Para a Globo, as coisas são muito claras. Bolsonaro tem o poder da Record, dos pastores neopentecostais, dos militares e dos milicianos.

A Globo, desde antes da eleição de Bolsonaro, foi declarada inimiga da família. Bolsonaro anunciou que iria estrangular a organização com o corte de anúncios de órgãos do governo e de estatais.

A Globo resiste como pode, sabendo que já não conseguiu derrubar o jaburu. Ao atacar a política da saúde contra a pandemia, as fake news e os crimes dos filhos de Bolsonaro e as ameaças de golpe dele e dos militares, a Globo não defende a democracia, mas defende a Globo.

A Globo não ataca Bolsonaro e até os generais e outros cúmplices do poder porque atua em defesa dos interesses maiores do país. Não é nada disso. Até Fabrício Queiroz sabe que o projeto da Globo é livrar-se de Bolsonaro, depois de ter ajudado a criá-lo.

Por isso essa história agora de que a Globo está fazendo acordo com Bolsonaro pode ser recebida com estranhamento, mas não com total desprezo. É pouco provável, mas não é impossível.

Só os muito ingênuos e desinformados podem achar que Bolsonaro e a Globo farão uma trégua e depois tomarão um porre.

Mas é possível que, em troca de favores mútuos, os dois se tornem suportáveis um ao outro, pelo menos por algum tempo. Seria a hora de recolher as armas.

Por isso só há uma saída para a Globo, depois da notícia de que o ministro das Comunicações, Fábio Farias, teve um encontro reservado com o vice-presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho.

A única saída, se isso não for verdade, é radicalizar a cobertura que a área de jornalismo faz do governo. Radicalizar no sentido de potencializar o que pode ser feito, no vasto campo aberto de desatinos, rolos e crimes dos Bolsonaros.

A Globo só escapa da suspeita de que vem de fato negociando com os Bolsonaro se mostrar com serviço, principalmente no Jornal Nacional, que continua implacável com as facções no governo.

Domingo passado o Fantástico pode ter dado uma amostra, com a reportagem sobre a produção de notícias falsas com gente de dentro do próprio Palácio do Planalto. Mas é preciso mais.

A Globo tem equipes e recursos para aprofundar a abordagem dos crimes de Bolsonaro. A fábrica de produção de fake news, com a participação dos garotos, é uma das pautas, mas claro que não é a única.

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