“Polarização só acabará em 2022, quando um novo presidente efetivamente governar e se comunicar com o povo”, diz cientista político ao DCM

Atualizado em 24 de junho de 2019 às 17:44
Alberto Carlos Almeida, cientista político. Foto: Reprodução/Twitter

POR CHARLES NISZ 

“O país não tem um líder que se comunique e governe para o povo desde a saída de Lula”, diz o cientista político Alberto Carlos Almeida. Em entrevista ao DCM, Almeida falou sobre a polarização eleitoral crescente desde 2014, sobre a centralidade de Lula na política brasileira nos últimos 30 anos e os rumos da direita e da esquerda brasileira até 2022.

“Lula é o protagonista da política desde 1989 quando foi derrotado por Collor. Em 1994 liderava as pesquisas de intenção de voto. Isso levou o governo a agir e implementar o Plano Real. Graças ao controle da inflação, Lula foi derrotado também em 1998, diz Almeida. Para ele, a emenda da reeleição foi aprovada para que FHC pudesse concorrer contra Lula.

A vitória de 2002 foi uma aposta contra o desemprego, adiciona Almeida. “Com o sucesso do seu governo, Lula foi reeleito, elegeu sua sucessora e ela foi reeleita. Lula foi impedido de se tornar ministro de Dilma, pois poderia reerguer o governo. Com Dilma deposta, Lula condenado, preso e declarado inelegível, para que não disputasse 2018”, acrescenta.

Mesmo com a vitória da extrema –direita, Lula continua atuando apesar de estar detido em Curitiba. “Se Lula afirma que há militares entreguistas, no dia seguinte o General Heleno dá um chilique, dizendo que ele não foi digno de ser presidente”.

Segundo Almeida, com a revelação de que o ministro da Justiça, Sérgio Moro, atuou junto ao Ministério Público para condenar Lula, o debate político voltou a gravitar em torno do PT e de Lula. “A libertação de Lula voltou à baila – até a procuradora-geral da República, Raquel Dodge já se manifestou – obviamente, contra a saída de Lula da prisão. Para Almeida, “é triste e injusto que Lula tenha sido derrotado por Moro no tapetão”.

DCM – Quais os danos para a democracia se um ator tem tanto protagonismo por tanto tempo?

Alberto Carlos Almeira – Nenhum. Isso apenas revela que nosso sistema não foi capaz de criar novos líderes, ou mesmo que os matou politicamente, como foram os casos de José Dirceu e Palocci.

Teria sido melhor se Lula tivesse virado ministro de Dilma em 2016?

Hoje, diria que não. Na época, diria que sim. Se Lula tivesse se tornado ministro de Lula, ele teria submergido junto com ela. Ele não seria hoje o que ele é. A baixa popularidade de Dilma iria se transferir muito para ele

Como você vê a ascensão de Doria e Bolsonaro, e mesmo de Zema e Ibaneis (Novo), em termos regionais? Podemos falar que a direita tem a chance de criar um predomínio direitista de uma década

Zema e Ibanez precisam ainda comer muita poeira. Eles têm que ser um sucesso em seus governos e serem reeleitos. Esse é o teste principal, sem isso nenhum passo maior é possível. Bolsonaro e Doria disputam o mesmo eleitor. Em 2018 ou vai um ou o outro para o segundo turno, caso evidentemente os dois sejam candidatos. No segundo turno é impossível dizer quem vencerá, estamos muito longe de 2022.

Uma crítica muito comum de quem está à esquerda do PT é que “o PT precisa superar o pai Lula. Como você vê essa crítica freudiana, e quem você aponta como sucessor? Boulos, Haddad?

Acho que prescrições não funcionam em política. O PT deve superar Lula, como? Isso não ocorre assim. Outra coisa, se Lula é um grande Lula político, por que superá-lo? Utilize-se sua liderança em proveito do partido. Na verdade, essa crítica tem a ver com o fato desses partidos não terem Lula em seus quadros, se tivessem jamais falariam isso.