
A Polícia Civil de São Paulo e a Justiça Desportiva do estado abriram procedimentos paralelos para apurar uma denúncia de injúria racial envolvendo dois atletas de 15 anos durante uma partida do Campeonato Paulista de Basquete Sub-15, realizada no Clube Pinheiros, na zona oeste da capital paulista.
Segundo o boletim de ocorrência, um jogador do Clube Pinheiros teria chamado um adversário do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa de “macaco” durante o confronto. O caso aconteceu em 25 de abril. Em depoimento prestado à polícia, a vítima relatou que o suposto ofensor teria dito “vai treinar, macaco” logo após acertar uma cesta de três pontos.
Uma testemunha ouvida no caso afirmou ter escutado parte da fala. Um companheiro de equipe da vítima disse à polícia que ouviu a palavra “macaco”, mas não conseguiu identificar o restante da frase, já que acompanhava a partida do banco de reservas.
A partida chegou a ser interrompida após a denúncia feita pelo atleta ao treinador. Representantes das equipes e a arbitragem conversaram em quadra e decidiram retomar o jogo. O duelo era transmitido ao vivo por um canal no YouTube, mas não foi possível identificar o suposto xingamento na gravação analisada posteriormente.
O adolescente acusado negou ter cometido ofensa racial. Em depoimento, afirmou que a discussão teve início após provocações em quadra e disse que suas falas se limitaram a comentários sobre o desempenho do adversário e uma referência a uma dispensa anterior de outro clube.
O técnico do jogador apontado como autor da fala declarou não ter presenciado qualquer ofensa racial durante a partida. Em depoimento, afirmou ter observado apenas uma “discussão e provocação natural de jogo”. Ele também destacou que não ouviu manifestações racistas e que é negro.

A mãe da vítima relatou impacto emocional e físico no adolescente após o episódio. Em entrevista ao UOL, afirmou que o filho apresentou queda de apetite e dificuldade de concentração. “Ele ficou um mês e meio sem conseguir fazer uma refeição completa. Chegou a pedir para sair de um dos jogos porque estava fraco”, disse.
Segundo ela, o atleta passou a receber acompanhamento psicológico, nutricional e assistência social do Centro Olímpico. O caso foi registrado pela Polícia Civil como ato infracional análogo ao crime de injúria racial.
O delegado Edson Mariano Marques, do 14º DP de Pinheiros, avaliou que os relatos da vítima e de testemunha indicam a possível ocorrência do ato. O adolescente foi liberado sob responsabilidade dos pais e deverá ser encaminhado ao Ministério Público.
A Federação Paulista de Basquete informou que o caso foi enviado à Comissão Disciplinar da Justiça Desportiva. A entidade afirmou que o procedimento envolve análise de provas, depoimentos e possível aplicação de sanções, conforme o andamento do processo.
Em nota, a Federação Paulista de Basquete declarou “tolerância zero com qualquer forma de racismo, injúria racial ou discriminação no esporte” e afirmou que adota diretrizes de prevenção e enfrentamento a práticas discriminatórias desde 2025.
O julgamento na esfera desportiva já sofreu dois adiamentos. As audiências inicialmente previstas para 19 e 26 de maio foram remarcadas. Em 27 de maio, houve nova suspensão do processo por 30 dias, possibilidade prevista em casos de solicitação das partes ou necessidade de produção de novas provas.
A federação informou não ter ingerência sobre os adiamentos, já que o tribunal desportivo atua de forma independente. A entidade afirmou que aguardará a conclusão do processo para aplicar as medidas cabíveis.
O Clube Pinheiros informou que acompanha o caso, mas não se manifesta sobre ocorrências envolvendo menores de idade. Em nota, afirmou que a decisão busca preservar os envolvidos.
Já o Centro Olímpico afirmou que presta apoio ao atleta e à família, com acompanhamento social e jurídico por meio da Associação Desportiva Centro Olímpico (Adeco). O clube também criticou a demora na conclusão do julgamento e disse seguir acompanhando o caso.