Polícia investiga relação entre morte do cão Orelha e grupos online de ódio

Atualizado em 28 de janeiro de 2026 às 20:55
O cão Orelha. Foto: Reprodução

A morte do cão Orelha, em Florianópolis, levanta um alerta sobre a influência da radicalização online e de comunidades digitais violentas frequentadas por crianças e adolescentes. Especialistas que atuam no enfrentamento a crimes virtuais afirmam que a tortura e a morte de animais são práticas recorrentes nesses ambientes, associadas ao chamado zoosadismo, termo que define o prazer em ver ou praticar crueldade contra animais. Com informações do Estadão.

Orelha foi encontrado agonizando no dia 4 e levado a uma clínica veterinária, onde um laudo apontou a necessidade de eutanásia. O caso ganhou grande repercussão porque quatro adolescentes são apontados como autores da agressão. A defesa de dois deles sustenta que “não há vídeo ou imagens que comprovem o momento do suposto ato de maus-tratos”.

A Polícia Civil de Santa Catarina afirma que, até o momento, não há indícios de influência direta de comunidades virtuais de ódio, mas especialistas apontam semelhanças com padrões já observados em outros casos.

“É como se estivesse no Titanic, um quarteto de cordas seguindo solenemente rumo ao iceberg, sem se dar conta. A ponta do iceberg é o Orelha, mas é só a ponta”, afirmou o procurador e coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve) do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Fábio Costa Pereira. “O zoosadismo é um grande marcador da mobilização à violência, e tem coisas muito mais graves”.

Orelha em veterinário após ser espancado. Foto: Reprodução

Segundo Pereira, que atua há dois anos na prevenção da violência online, a morte do animal não deve ser tratada como um episódio isolado. Ele destaca que, junto do zoosadismo, surgem outras práticas graves. “Há muitas crianças e adolescentes sendo instigadas ao suicídio. Há crianças sendo vítimas de abuso por seus irmãos, pedofilia, como sextorsão (ameaça de divulgação de imagens intimas), sessões de automutilação”.

Nesta semana, outro caso chamou atenção: a morte do cão Abacate, em Toledo (PR). A Polícia Civil do Paraná afirma que é possível dizer que o animal foi morto de forma intencional, embora a motivação ainda não esteja esclarecida.

Especialistas explicam que a radicalização ocorre, em grande parte, pela exposição excessiva a conteúdos nocivos em redes sociais e jogos, que provocam dessensibilização à violência.

Muitos adolescentes são recrutados nesses ambientes e acabam integrando comunidades como a COM/764, descrita em relatório do Stop Hate Brasil como um conjunto amorfo de subgrupos e subculturas online nocivas, voltadas à radicalização violenta e à prática colaborativa de crimes.

Esses grupos incentivam e ensinam crimes como abuso sexual infantil, estupros virtuais e violência extrema contra animais. Em alguns casos, os participantes são desafiados ou chantageados a cometer atos violentos, inclusive mediante pagamento em moedas virtuais de jogos. São jovens que “compartilham visões de mundo de desesperança ou centradas na glorificação da violência, no colapso social deliberado, no ódio niilista e na misantropia”, segundo relatório da pesquisadora Michele Prado.

O procurador compara a dinâmica à de ataques a escolas. “Se a violência é uma moeda social, a notoriedade é aquilo que os transforma em alguém muito maior nesta e em várias comunidades”, afirma. “Isso gera competição interna para saber qual mais o perverso, qual é o pior”.

De acordo com a delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, do Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, entre oito e dez animais, principalmente filhotes, são mortos todas as noites com requintes de crueldade por membros dessas redes, muitas vezes transmitidos ao vivo para plateias de até 600 pessoas.

Para ela, o zoosadismo integra um processo de dessensibilização que depois é transferido para pessoas. “Depois eles passam a induzir meninas à automutilação e ao suicídio”.

No caso de Orelha, a delegada acredita que os adolescentes aplicaram na prática o que podem ter visto ou praticado no meio virtual. “É muito difícil não ter essa influência, pois tudo o que acessam online, esses vídeos curtos de brain rot, todos buscam a dessensibilização (redução da sensibilidade emocional)”.

À frente do Noad há quase dois anos, Lisandrea afirma que o núcleo já salvou 358 crianças e adolescentes de indução ao suicídio. “Se computar gatinhos e cãozinhos, esse número passa de 2 mil. Alguém tem que fazer alguma coisa, porque é um problema geracional.”

Embora leis recentes tenham agravado as penas por maus-tratos a animais, adolescentes respondem apenas por ato infracional, com internação máxima de até três anos. Pais ou responsáveis podem ser punidos se comprovada participação ou omissão. “O que a gente percebe é que a violência contra animais vem piorando e escalando”, alerta a delegada.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.