
O artigo sobre o estudo piloto da polilaminina em humanos, usado como base para divulgar a possível eficácia da substância no tratamento de lesões medulares, foi rejeitado por ao menos três revistas científicas. O fato foi confirmado pela bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que lidera as pesquisas, ao explicar por que os resultados ainda não foram publicados em periódicos revisados por pares — etapa considerada essencial para validação científica independente. Com informações do Estadão.
A ausência de publicação tem sido uma das principais ressalvas de outros cientistas, já que a avaliação por pares verifica métodos, critérios de inclusão, coleta de dados e se as conclusões são sustentadas pelas evidências apresentadas.
Críticas metodológicas e questionamentos dos revisores
Segundo a pesquisadora, os revisores apontaram falhas que impediram a aceitação do estudo, entre elas a falta de explicação sobre o mecanismo de ação da polilaminina na medula e a possibilidade de que os resultados fossem um “artefato”, quando efeitos aparentes decorrem de erros metodológicos.
Especialistas destacam que estudos piloto costumam ter dados limitados e servem mais para gerar hipóteses do que para comprovar eficácia.
“O estudo piloto serve para você ensaiar o que vai fazer no estudo clínico: quantos pacientes vai precisar, ajustar a dose, ajustar intervalo de dose, entender a melhor população para receber a medicação; não é para determinar eficácia. Mesmo relatos de casos, como esse da polilaminina, servem para gerar uma hipótese, e não como evidência”, afirmou o neurocirurgião Eberval Gadelha Figueiredo.
Ele também explicou que a rejeição pode ocorrer quando há fatores de confusão que impedem identificar a causa dos resultados.
“No estudo da polilaminina, se os revisores usaram o termo ‘artefato’, talvez quiseram dizer que havia muitos fatores de confusão que impediam determinar o que causou cada desfecho. Eram somente oito pacientes, três morreram, muitos foram operados (para descompressão da medula), então não dá para saber o que causou a melhora”, disse.
Estudos indicam ainda que entre 10% e 30% dos pacientes com suspeita de lesão medular podem recuperar movimentos espontaneamente ou com cirurgia e fisioterapia, o que dificulta atribuir resultados à substância.
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Patente, pré-print e próximos passos
Tatiana afirmou que inicialmente evitou submeter o artigo por não ter a patente da molécula, temendo a perda da propriedade intelectual. Após o laboratório Cristália adquirir os direitos e assumir o processo de patente, o manuscrito foi enviado às revistas, mas recebeu negativas.
Atualmente, os dados estão disponíveis apenas em formato pré-print, publicado em 2024 na plataforma MedRxiv, o que significa que ainda não passaram por revisão por pares e deixa a comunidade científica dependente da narrativa dos próprios autores.
A pesquisadora informou que prepara uma nova versão do trabalho para tentar nova submissão, sem revelar o periódico escolhido.
Especialistas ressaltam que a rejeição não invalida a pesquisa, mas evidencia limitações e a necessidade de estudos clínicos maiores, com grupo controle, para comprovar a eficácia da substância no tratamento de lesões medulares, já que estudos piloto funcionam como etapa inicial para definir métodos, doses e população adequada antes de testes mais robustos.