Populismo, ultraliberalismo e linguagem fascista: os conflitos em torno da Petrobras. Por Eduardo Maretti

Foto: Sérgio Lima/Poder 360

Do portal Brasil de Fato:

Qual o significado da intervenção do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras? Na sexta-feira (19), para espanto do mercado, o chefe do Executivo anunciou que trocaria o presidente da estatal, Roberto Castello Branco, pelo general Joaquim Silva e Luna. Segundo cálculos de consultorias amplamente alardeadas pela mídia corporativa, desde então a companhia sofreu desvalorização de aproximadamente R$ 100 bilhões. Parece evidente que a intervenção é uma jogada de marketing do presidente, dirigida a sua base eleitoral.

Após o furacão, o interesse do mercado se voltou para reunião do conselho de administração da Petrobras, nesta terça-feira (23). A reunião durou o dia todo. Só no início da noite foi aprovada a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE). Na ocasião, a mudança no comando da empresa será analisada. Também serão eleitos os novos membros do colegiado.

Ainda na tarde de hoje, Bolsonaro tratou de colocar panos quentes na crise. “Nós não temos uma briga com a Petrobras. Nós queremos, sim, que cada vez mais ela possa nos dar transparência e previsibilidade”, declarou. E tratou de negar que Paulo Guedes (Economia) esteja enfraquecido. Disse que o ministro é “uma das pessoas mais importantes” na luta contra a covid-19.

“Meter o dedo”

Após o anúncio da mudança no comando da estatal do petróleo, para supostamente combater a alta dos preços, Bolsonaro mira a Eletrobras pelo mesmo motivo: “Vamos meter o dedo na energia elétrica, que é outro problema”, prometeu. Na Câmara dos Deputados, o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), assumiu o comando também para garantir celeridade à privatização da Eletrobras.

A irritação de vozes do mercado extrapolou a lógica. Por exemplo, o conselheiro da Petrobras Marcelo Mesquita, ligado ao sistema financeiro, chegou a dizer esta semana que Bolsonaro fazia “o primeiro flerte dele de mostrar que é comunista, assim como o PT”. Por parte de setores ligados ao mercado, há no momento uma “operação gigantesca para conter os danos e mostrar ao mundo que a política neoliberal continua”. A observação é de Giorgio Romano Schutte, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC). “Uma dúvida é saber se Bolsonaro tem consciência sobre o que fez”, diz.

Populismo ou mercado?

Porém, se a intervenção do presidente pode ser pontual, para agradar sua base eleitoral, é também evidente que é muito difícil equilibrar populismo com interesses do mundo das finanças. “O mercado evidentemente não vai jogar a toalha, há muitos interesses nacionais e internacionais”, avalia Giorgio. Já houve sinalização, por parte do vice-presidente, Hamilton Mourão, e do general Silva e Luna, de que um “fundo de compensação”, bancado pelos royalties do petróleo, poderia ajudar a “amortecer os aumentos” dos combustíveis, nas palavras de Mourão.

Uma solução como essa, ou o financiamento de um “preço social” do gás de cozinha, seriam soluções políticas para Bolsonaro apresentar à sua base eleitoral. Se conseguir um acordo pelo qual mantenha a política ultraliberal, mas na questão dos preços consiga uma estabilização, ele sai ganhando em popularidade, avalia o professor. “No fim, o mercado financeiro ficaria com a maior parte do bolo (privatização de estatais, refinarias ou mesmo da própria Petrobras), mas um pedacinho vai pelo populismo.”

Embora o cenário esteja incerto, é notável que, desde o início de seu governo, o discurso de Bolsonaro é deliberadamente ambíguo e contraditório. Ele é conhecido por “esticar a corda e depois voltar atrás”. Em episódio recente, no mês passado, ameaçou demitir o presidente do Banco do Brasil, André Brandão, que havia anunciado o fechamento de 200 agências – mas recuou. Já num caso envolvendo os Correios, em junho de 2019, demitiu o general Juarez Cunha – por criticar a ideia de privatizar a empresa – e o trocou por outro militar da mesma patente, Floriano Peixoto Neto.

Projeto é reeleição

Para Giorgio Romano, no momento nada está excluído, já que o principal projeto do atual presidente é se reeleger. “Ele também é capaz de provocar um conflito com o setor econômico, com uma política voltada ao apoio popular. O que pode também significar – e esse é o medo do mercado – uma guinada para uma política nacional-populista” avalia. O caso da Petrobras mostra ainda que a militarização do governo Bolsonaro está avançando, mas o significado disso continua “nebuloso”, na opinião do analista.

Muita coisa depende de fatores circunstanciais. Por exemplo, há uma perspectiva de que, em um ano e meio, os preços do petróleo estejam mais altos. Isso pelo possível fim da pandemia de covid-19 e retomada das economias e da demanda, o que complicaria a vida de Bolsonaro. Desde o governo de Michel Temer, os preços dos combustíveis no país são atrelados às variações do mercado internacional.

Mas, a curto prazo, o impacto da crise sanitária continua. Com o fim do inverno no hemisfério norte, a demanda por petróleo e gás diminui. Isso poderia ajudar a diminuir os preços e o problema do governo no momento. Mas suas dificuldades voltariam depois.

Linguagem fascista

Giorgio Romano destaca que o atual presidente é bastante diferente de Fernando Collor, com quem é erroneamente comparado. Quando o mercado perdeu a confiança em Collor, ele caiu. Mas Bolsonaro tem um governo militarizado e uma parcela da população organizada que o apoia, embora não seja maioria. “Quando ele vem com uma política de controlar preços, junto a uma narrativa de fazer isso pelo povo contra interesses financeiros, é o próprio fascismo em ação, ao usar os argumentos da esquerda contra a financeirização da energia. Não é que ele esteja fazendo isso mas, se fizer, vai ganhar em popularidade, evidentemente”, conclui o professor.

Uma das características do fascismo, conforme apontam estudiosos como o filósofo e historiador marxista Georg Lukács (1885-1971), é a comunicação direta com a população, ignorando o diálogo com as instituições. É essa prática e uso da linguagem que Bolsonaro sempre utilizou em seu governo e repete agora, no caso da Petrobras.

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