Por que a China e o Japão estão em pé de guerra pelas ilhas Diaoyu / Senkaku

Documentos provam que as ilhas foram tomadas como butim de guerra pelo exército japonês.

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Han-Yi Shaw é um pesquisador no Centro de Pesquisas de Estudos Jurídicos Internacionais da Universidade Nacional de Chengchi, em Taipei, Taiwan. Baseado em documentos antigos do governo japonês, ele escreveu este artigo em que defende a soberania chinesa das ilhas Diaoyu / Senkaku, objeto de uma disputa territorial perigosa entre Japão e China. 

A compra recente das Ilhas Diaoyu / Senkaku pelo Japão previsivelmente reacendeu as tensões entre China, Japão e Taiwan. Três meses atrás, quando Niwa Uichiro, o embaixador do Japão na China, advertiu que essa compra poderia provocar uma “crise extremamente grave” entre China e Japão, o governador de Tóquio Ishihara Shintaro chamou Niwa de embaixador desqualificado, que “precisa aprender mais sobre a história de seu próprio país”.

O embaixador Niwa foi forçado a pedir desculpas por suas declarações e foi recentemente substituído. Mas o que é mais alarmante em meio a estes acontecimentos é que, apesar da sociedade democrática e pluralista do Japão, o aumento de sentimentos nacionalistas está deixando de lado visões moderadas e impedindo o diálogo racional.

O governo japonês alega que as ilhas Diaoyu / Senkaku são território japonês sob a lei internacional e do ponto de vista histórico e insistiu repetidas vezes que não existe disputa. Apesar de o resto do mundo ver uma grande disputa, o governo japonês continua a fugir de importantes fatos históricos por trás de sua incorporação ilegal das ilhas em 1895.

Especificamente, o governo japonês afirma que, “de 1885 em diante, o nosso governo realizou pesquisas no local, confirmando que as ilhas eram desabitadas e que não houve sinais de controle por parte do Império Qing”.

Minha pesquisa em mais de 40 documentos oficiais do período Meiji, desenterrados dos Arquivos Nacionais do Japão, do Escritório de Registros Diplomático, e da Biblioteca de Estudos de Defesa demonstram claramente que o governo Meiji reconheceu as ilhas como propriedade chinesa em 1885.

Após a primeira pesquisa no local, em 1885, o ministro japonês das relações exteriores escreveu que “os jornais chineses têm relatado rumores de nossa intenção de ocupar as ilhas pertencentes à China, próximas a Taiwan. Neste momento, se tivéssemos de fincar bandeiras nacionais , isso levantaria suspeitas na China.”

Protesto na China pela soberania das ilhas
Protesto na China pela soberania das ilhas

Em novembro de 1885, o governador de Okinawa confirmou “uma vez que este assunto está relacionado à China, se surgirem problemas eu levaria o arrependimento para o meu túmulo”.

 

“As pesquisas das ilhas estão incompletas”, escreveu o novo governador de Okinawa em janeiro de 1892. Ele solicitou que o navio Kaimon fosse enviado para as ilhas, mas, em última análise, uma combinação de falta de comunicação e mau tempo impossibilitou a pesquisa.

Após uma série de derrotas chinesas na Guerra Sino-Japonesa, um relatório do governo japonês disse que “este assunto envolveu negociações com a China … mas a situação hoje é muito diferente da época.” O governo Meiji, após uma decisão do gabinete em 1895, prontamente incorporou as ilhas.

As negociações com a China nunca aconteceram e essa decisão nunca foi tornada pública.

Em sua biografia, Koga Tatsushiro, o primeiro cidadão japonês a alugar as ilhas do governo Meiji, atribuiu a posse das ilhas pelo Japão como resultado da “galante vitória miltar das nossas forças imperiais”.

Coletivamente, esses documentos oficiais não deixam dúvida de que o governo Meiji baseou a sua ocupação numa anexação como butim de guerra. Esta é a verdade inconveniente que o governo japonês tem convenientemente evitado.

O Japão afirma que nem Pequim e nem Taipei se opuseram à administração dos EUA após a Segunda Guerra Mundial. Isso é verdade, mas o que o Japão não menciona é que nem Pequim e nem Taipei foram convidados como signatários do Tratado de Paz de San Francisco em 1951, a partir do qual os EUA reduziam seus direitos administrativos.

Quando o Japão anexou a ilhas Diaoyu / Senkaku, em 1895, destacou-as de Taiwan e as colocou sob a Prefeitura de Okinawa. Além disso, o nome japonês “Senkaku Ilhas” foi introduzido pela primeira vez em 1900 pelo acadêmico Kuroiwa Hisashi e adotado pelo governo japonês depois. Meio século mais tarde, quando o Japão devolveu Taiwan para a China, ambos os lados adotaram o arranjo administrativo de Taiwan de 1945, com o conhecimento chinês que as desabitadas Ilhas Senkaku eram de fato as antigas Ilhas Diaoyu.

O governo japonês freqüentemente cita dois documentos como prova de que a China não considera as ilhas chinesas. O primeiro é uma carta oficial de um cônsul chinês em Nagasaki, datada de 20 de maio de 1920, que listou as ilhas como território japonês.

Nem Pequim e nem Taipei discordam que as ilhas Diaoyu / Senkaku – juntamente com toda a ilha de Taiwan — estiveram formalmente sob ocupação japonesa na época. No entanto, após a II Guerra Mundial, o Japão foi obrigado a entregar territórios obtidos através de agressão e a revertê-los ao seu estado legal pré-1895.

Uma modelo chinesa se deixa pintar com imagem que evoca a soberania da China sobre Daioyu
Uma modelo chinesa se deixa pintar com imagem que evoca a soberania da China sobre Daioyu

A segunda peça de evidência é um mapa chinês de 1958, que exclui as ilhas Senkaku do território chinês. Mas o governo japonês deixa de fora informações importantes em notas de rodapé do mapa: “certas fronteiras nacionais são baseados em mapas compilados antes da Guerra Sino-Japonesa (1937-1945).”

Registros do período Qing comprovam a propriedade chinesa das ilhas Diaoyu / Senkaku antes de 1895. Documentos indicam que as ilhas ficam dentro da “fronteira que separa terras chinesas e estrangeiras.” E, de acordo com jornais de Taiwan, “a Ilha Diaoyu acomoda 10 ou mais navios de grande porte”, sob a jurisdição de Kavalan, em Taiwan.

O direito de saber é a base de qualquer democracia. O público japonês merece conhecer o outro lado da história. São os políticos que invocam sentimentos públicos sob o nome de interesses nacionais que representam o maior risco, e não as próprias ilhas.

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