Por que a Folha protege jornalistas, colunistas e robôs? Por Moisés Mendes

Atualizado em 29 de abril de 2026 às 9:14
Imagem ilustrativa. Foto: Divulgação

Um editorial publicado recentemente pela Folha de S. Paulo, sobre a situação da Argentina, permite a ampliação de uma suspeita que o próprio jornal fomenta. A opinião dos donos da Folha, expressa em editoriais, como acontece em todo o mundo, estaria sendo escrita por robôs?

A suspeita foi acionada pela forma e pelo conteúdo. Na forma, o editorial tem o texto esquemático de produções da Inteligência Artificial. No conteúdo precário, por defender um raciocínio torto e quase colegial.

A Folha pergunta, no editorial de 4 de abril: por que a popularidade de Milei descola da economia? Nem os jornais argentinos de direita fazem mais essa interrogação sobre por que a população está insatisfeita com as suas vidas e com o governo. Leiam o jornalista Claudio Jacquelin, do La Nación, sobre a tempestade social que ameaça Milei.

Mas a Folha lista bobagens como o controle da inflação – uma inflação mensal de 3%, quase equivalente à inflação anual no Brasil, que a Folha considera alta. E acrescenta outras banalidades sobre estabilidade e confiança externa.

O editorial é ruim em todos os sentidos, mas não seria nada surpreendente no contexto da precarização das grandes redações brasileiras. O problema é que a Folha admite e incentiva o uso de IA por seus jornalistas e, o que é pior, por seus colunistas que emitem opiniões.

Editorial da Folha de S. Paulo. Foto: Reprodução

A direção do jornal estimula o uso de robôs, a partir da constatação de que essa é uma prática disseminada dentro da redação e entre os colunistas. A primeira a confessar que pede para que a IA escreva tudo que publica foi a colunista Natalia Beauty.

Na edição de 21 de março, a ombudsman do jornal, Alexandra Moraes, fez um balanço do uso da IA pelos colunistas, aplicando ferramentas que identificam a presença de textos de robôs, e informou o seguinte, ao analisar 3.732 artigos de colunistas de janeiro a fevereiro:

“Em 332 colunas, ou 8,9%, havia texto de IA, segundo a ferramenta. Mas isso ia de pequenos trechos até a quase totalidade dos textos. Esta última era o foco. Em 98 artigos, o texto detectado como de IA ocupava mais de 80% do conteúdo”.

De 25 artigos de Natalia Beauty, 18 apareciam com mais de 80% de conteúdo gerado por IA. A ombudsman pediu explicações aos outros colunistas (Natalia é a única a admitir o uso da IA) e recebeu respostas evasivas ou nenhuma reposta.

A informação mais impactante foi essa: um colunista disse que não comentaria o assunto, que poderia ter, em tom de ameaça, “graves consequências e desdobramentos”. Será que um robô elaborou a resposta, com a ameaça, por encomenda? Quem é esse colunista?

O caso revela a conivência do jornal com a total falta de transparência, ao apoiar o uso da IA e não exigir que seus colunistas confessem o uso de máquinas para produzir seus textos.

Se estão fazendo a coisa certa, por que não admitir? A Folha, que cobra transparência do setor público, de autoridades e de todas as pessoas com exposição pública, esconde e protege gente que dita uma pauta à IA e espera um texto pronto.

Ganham um artigo escrito geralmente dentro de um padrão linear e monótono, definido como formulaico, que segue uma fórmula com clichês e excesso de simplorismos e ‘racionalidade’, sem inventividade e surpresas.

E esse não é um tema de interesse apenas do jornalismo, das empresas de mídia ou de quem gosta de ler jornais. É uma questão de interesse geral, considerando-se que a mídia é protagonista na vida de todos nós, e principalmente das decisões políticas.

Nada é mais público, no mais amplo sentido, do que a produção cotidiana dos jornalistas, em todas as mídias. E o que a Folha faz é proteger o vício de alguns profissionais em IA.

Redação da Folha de S.Paulo. Foto: reprodução

Agências de intermediação de aplicações em bolsa fazem uso de IA, mas admitem quem fazem. Médicos também fazem e admitem. A ciência faz e seus usuários tornam esse uso público e com nome. E os profissionais do jornalismo e os colunistas avulsos fazem, mas escondem suas identidades? Comportam-se como consumidores de drogas ilícitas? Têm vergonha dessa relação?

A Folha, ao admitir que um colunista ameace sua ombudsman, encarregada de avaliar o que o jornal produz, pratica o que condena em outras áreas. Todos, e não só os assinantes da Folha e de outros jornais, têm o direito de saber quem escreve o que se lê.

Se não for assim, a prática da Folha poderá, em nome dessa proteção à intimidade do profissional com os robôs, ser disseminada por outras áreas, inclusive da educação? Escolas poderão ter conteúdos produzidos por robôs, e não por professores? Aulas poderão ser ministradas por robôs? Sem revelar o que fazem?

Professores e estudantes poderão, como faz a Folha, assinar textos que não são deles, em monografias, teses e outros trabalhos acadêmicos? Na área da educação, já está claro que não. Por que o jornal seria diferente?

Que foro especial permite que a Folha esconda de seus leitores quem são os profissionais da redação e os colunistas contratados que usam IA para produzir seus textos? A ombudsman pode ter sido mesmo ameaçada por um robô? Os robôs poderão um dia dirigir a Folha?

Publicado originalmente em Extra Classe

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/