Por que a monarquia britânica entregou o ex-príncipe Andrew no caso Epstein. Por Sara Vivacqua

Atualizado em 24 de fevereiro de 2026 às 19:41
Andrew e Epstein. Foto: Reprodução

Pouco depois das 8h00 da manhã desta quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026, seis viaturas não identificadas da Thames Valley Police chegaram a Wood Farm, a residência que Andrew Mountbatten-Windsor — outrora Príncipe Andrew, Duque de York — ocupa na propriedade real de Sandringham, em Norfolk.

Era o seu 66º aniversário. Horas depois, um homem visivelmente abatido era fotografado no banco traseiro de um carro deixando a delegacia de Aylsham: o primeiro membro senior da família a ser detido pela polícia na história moderna do Reino Unido.

Tampouco existe precedente de que a polícia do Vale do Tâmisa tenha entrado alguma vez em propriedades reais sem coordenação prévia com o Gabinete do Rei.

Quem autorizou? Segundo o jornal britânico The Guardian, Charles III e o Palácio negam ter tido qualquer conhecimento prévio da investigação ou da ação policial — o mesmo Charles III que declarou, meses antes, que a família real iria cooperar com a polícia. A fluidez com que tudo aconteceu merece, ela própria, investigação.

A mídia britânica tem sistemática e deliberadamente omitido um dos aspectos mais cruciais desta investigação: a detenção não decorreu de uma decisão acusatória do Crown Prosecution Service, o Ministério Público britânico que durante anos recusou agir, sendo amplamente criticado por deferência excessiva à Família Real. Ela resultou de uma ação policial no âmbito de uma investigação em curso — impulsionada, em parte, pela queixa e pela pressão pública do Republic, um grupo de pressão republicano apartidário com cerca de 9.000 membros pagantes e 140.000 apoiadores registrados, que apresentou queixa-crime à Thames Valley Police e preparava uma acusação privada com advogados especializados para o caso de a polícia não agir.

A resposta da Coroa ao longo dos meses foi um exercício de distanciamento calculado. Primeiro, o Rei Charles afastou Andrew de suas funções reais e patronatos — um gesto que, não por acaso, abria juridicamente o caminho para investigações que não seriam possíveis dentro das prerrogativas da família real.

Depois, em comunicados progressivamente mais distantes, passou de “membro da família” para “matéria a ser investigada pelas autoridades”. Charles III emitiu uma declaração pessoal hoje— sem o protocolo usual de Buckingham Palace — afirmando que “a lei deve seguir seu curso” e oferecendo “total cooperação” à polícia.
Não há dúvidas de que o distanciamento de Andrew e sua prisão se tornaram uma necessidade para salvar a monarquia. Mas há um aspecto muito mais sombrio que é deliberadamente ocultado.

O CEO do Republic, Graham Smith, foi direto em suas declarações: “Há razões para acreditar que, em relação a alguns crimes, outros membros seniors da Família Real podem ser testemunhas materiais e podem também ter cometido crimes. Charles e William precisam falar e admitir o que sabiam, quando souberam e por que continuaram a proteger Andrew.”

Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. Foto: Getty Images

O Que a Coroa Sabia — e o Acordo UKUSA

No Reino Unido, o acesso regular a residências reais é altamente controlado e submetido ao processo de vetting — verificação de segurança — conduzido pelo MI5 em coordenação com o Departamento de Proteção Especial da Metropolitan Police. O nível mais elevado, o Developed Vetting (DV), é obrigatório para quem tem acesso a material classificado TOP SECRET e para quem circula habitualmente nessas residências na proximidade de membros da família real.

Epstein e Ghislaine Maxwell frequentaram o Castelo de Windsor, Sandringham e o Royal Lodge durante três décadas. A lógica do sistema de segurança britânico é implacável: nenhuma dessas visitas seria possível sem dossiês de inteligência completos sobre ambos — dossiês que chegavam necessariamente aos briefings de segurança da família real. A rainha Elizabeth II recebeu Robert Maxwell, pai de Ghislaine, figura conhecida dos serviços de inteligência britânicos por suas ligações ao Mossad israelense. A rede Epstein fazia parte do círculo institucional da Coroa?

A essa dimensão britânica soma-se a arquitetura de intercâmbio de inteligência do UKUSA Agreement — o tratado multilateral assinado em 1946, formalmente conhecido como Five Eyes, que reúne as agências de inteligência do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia (e informalmente Israel) numa rede de compartilhamento de informações dos serviços secretos desses países. As investigações americanas sobre Epstein — incluindo material do FBI, do DOJ e da CIA — circularam por essa rede. O Reino Unido teve acesso. A Coroa Britânica também. Qualquer alegação em contrário estaria na ordem do fantástico.

O que a mídia britânica evita perguntar é precisamente isto: se o sistema de vetting funciona, e se o Five Eyes compartilha o que compartilha, a Família Real britânica teve necessariamente acesso — ao longo de anos — a informações sobre a rede de Epstein. A prisão de Andrew é conveniente para a Coroa exatamente na medida em que fecha a porta que conduziria à pergunta sobre a verdadeira extensão do conhecimento e envolvimento de outros membros da família real com essa rede.

Andrew e Virginia Giuffre. Foto: Reprodução

As acusações que a detenção apaga

A escolha do tipo penal convida, ela própria, a questionamentos. Andrew foi detido por má conduta no exercício de função pública — um crime de direito consuetudinário sem código escrito, tecnicamente difícil de provar, que exige demonstrar que agiu na qualidade de funcionário público. Não foi detido por abuso sexual, estupro de vulnerável ou exploração sexual de menores — crimes pelos quais Virginia Giuffre o acusou de tê-la agredido quando tinha 17 anos, em Londres, Nova York e na ilha privada de Epstein. Giuffre morreu em 2025. O processo civil que moveu contra Andrew foi encerrado em 2022 por um valor milionário não divulgado e alegadamente muito superior ao pago a Sarah Fergunson no divorcio.

A realeza britânica não paga indenizações milionárias com base em especulações. Os arquivos de Epstein revelam que Andrew, em sua posição de Enviado Especial do Reino Unido para o Comércio e Investimento entre 2001 e 2011, vazou em várias ocasiões informações governamentais sensíveis e confidenciais, aparentemente em troca de benefícios financeiros pessoais. O mais notório ocorreu na véspera de Natal de 2010. Andrew escreveu a Epstein:
“Em anexo está um briefing confidencial produzido pela Equipe de Reconstrução Provincial em Helmand para Oportunidades de Investimento Internacional. Vou oferecer isto em outros lugares da minha rede (incluindo Abu Dhabi), mas estaria muito interessado em seus comentários, opiniões ou ideias sobre a quem mais poderia utilmente mostrar isto para atrair algum interesse. Infelizmente já descobri que a Fundação Gates não faz nada no Afeganistão.”

Helmand era, naquele momento, uma das províncias mais mortíferas do Afeganistão. O destinatário era um condenado por crimes sexuais envolvendo menores.

O briefing de Helmand não era um episódio isolado. Os arquivos de Epstein revelam um padrão sistemático: Estados em colapso e ativos saqueados eram, para Epstein, oportunidades de negócio que ele ativamente mapeava. Em julho de 2011, enquanto a OTAN bombardeava a Líbia e Gaddafi fugia, um associado escrevia a Epstein detalhando como acessar cerca de 80 bilhões de dólares em fundos líbios congelados internacionalmente — “roubados e desviados”, nas palavras do e-mail — recorrendo a ex-agentes do MI6 britânico e do Mossad israelense. Andrew oferecia-se como porta de entrada para o mesmo tipo de operação no Afeganistão.

Estranhamente, até onde foi divulgado, Andrew não é suspeito pelo tipo penal mais óbvio para o caso de vazamento de documentos confidenciais: a Official Secrets Act. Ainda que se possa alegar que a polícia escolheu o caminho processualmente mais viável para a detenção, a pergunta permanece sem resposta: por que razão esse enquadramento sequer foi mencionado até onde o conhecimento público alcança? Uma acusação nos termos da Official Secrets Act implicaria revelar em tribunal materiais classificados que o próprio governo britânico em certa medida pode bloquear por razões de segurança nacional — um paradoxo que favorece Andrew. E talvez não só ele.

Andrew Mountbatten-Windsor voltou a Sandringham — solto sob investigação, sem acusação formal, sem data definida para qualquer julgamento. Charles III inaugurou a semana da moda de Londres enquanto seu irmão era interrogado. A Republic prepara o próximo passo. E a mídia britânica continua seu trabalho de transformar este caso em um fato isolado — preservando, assim, a Coroa de uma responsabilização que os arquivos de Epstein tornam cada vez mais difícil de evitar.

Sara Vivacqua
Sara Vivacqua é advogada graduada pela Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg e mestranda em jornalismo investigativo pela Birkbeck, University of London. Foi procuradora do governo britânico e exonerada em maio de 2025 após "constranger o governo" por defender direitos humanos, a liberdade de Julian Assange e a soberania da Palestina. O governo Britânico reconheceu oficialmente que não houve qualquer impacto negativo em seu desempenho profissional nem uso indevido de informações do cargo.