Por que amamos os anti-heróis?

Os protagonistas dos melhores seriados são homens e mulheres incríveis — e no limite do odiável.

Dexter Morgan
Dexter Morgan

As melhores séries de TV de hoje têm como protagonistas homens e mulheres que não valem muita coisa, mas pelos quais você não consegue deixar de torcer, ainda que com uma certa culpa. O cinema, com sua infantilização, ficou com a falta de imaginação de  herois e super-herois.

Por que nós amamos os anti-heróis?

Porque eles falham; eles são outsiders; eles procuram a redenção e a vingança; eles não pensam no melhor para o mundo, mas para si mesmos; eles são incompreendidos; eles dão uma certa humanidade a defeitos dos vilões; eles agem à margem da lei; eles são complexos e cheios de dúvidas; eles são como nós — mas não muito, claro.

Não há como escapar deles. Como muita coisa na vida, é amor e desprezo à primeira vista.

Dexter Morgan, por exemplo, é um serial killer que mata serial killers. Um psicopata com essa estranha ética. Aliás, ele não epenas executa os caras, mas ele os tortura antes. Fora isso, tem uma relação esquisita com a irmã, mora em Miami e é um mentiroso contumaz. Ele merece ser apanhado pela polícia porque, racionalmente, você acha isso certo. Mas a série vai acabar se isso acontecer. E aí, como fica?

Kenny Powers é um ex-jogador de beisebol barrigudo,bêbado, falastrão, burro e com um ego gigantesco. Clona o cartão de crédito de seu único fã. Ele tenta se livrar do filho que teve de um caso com uma desqualificada. Foge para o México enquanto a namorada o espera num posto de gasolina. Danny McBride, o ator, é um gênio. Como não adorar um sujeito de mullet?

Pete Campbell queria ser Don Draper e esta é sua tragédia. Pete engravida a doce Peggy Olson e a trata como lixo. Sobe na carreira passando por cima dos outros e se muda para o subúrbio com a mulher, da qual não gosta. Enquanto Don Draper se esforça pra ser um sujeito normal e fazer as pazes com o passado, Pete prefere a parte dele em dinheiro. Se isso incluir convencer a secretária Joan a se prostituir para ganhar um cliente, tudo bem. “Me parece algo que vale o sacrifício. Estamos falando de uma noite na sua vida. Todos já tivemos noites em que cometemos erros, só que de graça”.

Jackie é uma enfermeira do New York City Hospital. Ela tem um casal de filhos pequenos, uma casa adorável, um marido gente fina e adora o que faz. Principalmente porque é viciada em remédios à base de morfina, que descola da maneira mais cândida – tendo um caso com o enfermeiro responsável pelo almoxarifado. Jackie está sempre a um passo da overdose. No meio tempo, salva centenas de pessoas e ainda é uma amiga querida da diretora do hospital.

O sargento Nicholas Brody volta da guerra do Iraque depois de ser dado como desaparecido. É recebido com honras de herói. Brody é acolhido pela família que não via há oito anos, aceita concorrer a vice-presidente, é recebido em coquetéis. Mas Brody bandeou-se, na verdade, para o outro lado e virou agente da Al-Qaeda. Ele viu o filho de seu ex-torturador ser morto pelos drones americanos. Ele viu o que os americanos são capazes de fazer. E ele não pensa duas vezes em dar um tiro na testa de seu ex-companheiro de farda. Tudo isso enquanto tem um caso com uma agente da CIA.

Baseado numa série da BBC, que por sua vez é inspirada em duas peças de Shakespeare, House of Cards é produzida pelo canal da internet NetFlix. Frank Underwood é um político canalha, casado com uma mulher linda, calculista e desiludida, numa versão washingtoniana do casal McBeth. Depois de ser passado para trás pelo homem que ajudou a eleger presidente, Frank embarca numa longa e tenebrosa jornada de traições, vinganças, assassinatos, manipulações e trapaças. Ele quer o poder, mas isso não vai saciá-lo. E nem a você quando zerar os treze episódios da primeira temporada em dois dias. Você vai rezar pela volta de Frank.

“Eu não estou em perigo. Eu sou o perigo”. Walter White, o professor de química que se transforma em chefão do tráfico de metanfetamina, é o anti-herói mais impressionante da televisão dos últimos 20 anos (como, aliás, Breaking Bad é a melhor série dos últimos 20 anos). O desespero o leva a uma metamorfose. É como se Eduardo Suplicy se transformasse em Jack, o Estripador. Ao contrário dos demais personagens desta lista, ele não era mau. Ele precisava de dinheiro para custear suas sessões de quimioterapia. Mas o lado negro de Walt, Heisenberg, aos poucos toma conta de seu coração e sua mente, espalhando a destruição como um cavaleiro do apocalipse. E tudo porque, como ele mesmo diz, um homem precisa prover sua família. Como discordar?

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