Por que argentinos estão buscando novas oportunidades de trabalho no Brasil

Atualizado em 7 de março de 2026 às 17:37
IImagem da colheita de erva-mate na província de Misiones, Argentina – El Instituto Nacional de la Yerba Mate/Divulgação

A recente mudança na política do governo argentino, com a decisão do presidente Javier Milei de acabar com a fixação de preços mínimos para a erva-mate, gerou um impacto profundo na economia da província de Misiones. A medida resultou em uma queda drástica nos preços do produto, o que desencadeou um êxodo de trabalhadores rurais da região, especialmente tarefeiros especializados na colheita da erva-mate. Em busca de melhores condições de trabalho, muitos desses argentinos migraram para o Brasil, principalmente para o Rio Grande do Sul.

Entre 2016 e 2021, a Receita Federal registrava cerca de 8.000 CPFs concedidos anualmente a cidadãos argentinos, mas em 2025 esse número saltou para quase 40 mil. Esses números refletem o êxodo da região de Misiones, um dos maiores polos produtores de erva-mate, localizada na tríplice fronteira com o Brasil, incluindo estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A erva-mate é um produto essencial no consumo de chimarrão, típico dos países do Mercosul, mas o fim da política de preços mínimos, que havia sido instituída em 2002, provocou sérios prejuízos aos trabalhadores locais.

O preço da erva-mate, que antes estava fixado em 420 pesos (aproximadamente R$ 1,57) por quilo, despencou para 180 pesos (cerca de R$ 0,67), o que tem tornado o setor cada vez mais insustentável para pequenos produtores e trabalhadores rurais. “As pequenas propriedades estão sendo abandonadas pelos tarefeiros. Felizmente, muitos têm conseguido migrar em grande número para o Brasil, buscando sustentar suas famílias”, afirmou Ángel Enrique Ozeñuk, produtor local.

Com a crise, muitos trabalhadores, como Joaquin Rios, de 32 anos, pai de duas crianças, têm migrado para o Brasil em busca de novas oportunidades de trabalho. Rios, que antes recebia 79 pesos (aproximadamente R$ 0,30) por quilo de erva-mate, agora se vê oferecendo sua mão de obra para a colheita de uvas na cidade gaúcha de Pinto Bandeira, onde o pagamento é bem superior: R$ 180 por dia. “Aqui, além do salário, oferecemos comida e moradia. A condição de trabalho é bem melhor”, afirmou Rios.

Trabalhadores descarregam sacos de erva-mate recém-colhida em Oberá — Foto: Natalia Favre/Bloomberg

A migração de argentinos para o Brasil não se limita à colheita de erva-mate. Lúcio Rodríguez Velasquez, um veterano que trabalha na colheita de diversas culturas como tomate, maçã, uva e morango, diz que já trabalhou em cidades gaúchas como Flores da Cunha e Caxias do Sul. “Ganho R$ 180 por dia, passo o mês e sobra mais da metade”, contou. Para ele, a cultura local e a remuneração atraem muitos trabalhadores argentinos, que vêm em busca de estabilidade financeira.

O aumento do número de trabalhadores argentinos no Brasil é uma tendência crescente. Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, afirmou que, nos últimos três anos, o número de imigrantes argentinos nas colheitas de uva no município tem aumentado significativamente. “Um vai puxando o outro. Eles encontram boas condições de trabalho, e os agricultores brasileiros pagam bem pela colheita da uva”, comentou Postal.

Os trabalhadores argentinos também têm se mostrado mais adaptados ao trabalho formal, com muitos sendo contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Isso se deve a mudanças nas práticas trabalhistas, especialmente após a descoberta de condições análogas à escravidão em algumas vinícolas do estado em 2023. Desde então, grandes vinícolas adotaram o regime CLT temporário para evitar problemas legais e garantir melhores condições de trabalho.

No entanto, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, Cedenir Postal, observa que falta mão de obra qualificada para a colheita. “Os argentinos são qualificados, têm uma educação sólida e entendem tanto a pauta agrária como a vida no campo”, afirmou. Isso tem sido essencial para suprir a demanda crescente por trabalhadores no campo, especialmente nas colheitas que são fundamentais para a economia do Rio Grande do Sul.

O impacto da mudança na política de preços da erva-mate na Argentina também foi notado no mercado internacional. De acordo com Ilvandro Barreto, coordenador da Câmara Setorial da Erva-Mate no Rio Grande do Sul, a Argentina havia perdido espaço para o Brasil no mercado global, mas a alteração na política de preços tornou o país mais competitivo. “Agora, a Argentina está trabalhando com preços próximos aos do Brasil, o que a torna mais competitiva no mercado internacional”, explicou Barreto.