Por que Bolsonaro se tornou um dos principais cabos eleitorais da esquerda argentina. Por Ricardo Gozzi

Jair Bolsonaro e Mauricio Macri (Marcos Corrêa/PR)

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O apoio declarado de Jair Bolsonaro à candidatura de Mauricio Macri à reeleição é apontado como um dos motivos – ainda que não o principal – para uma esperada vitória do opositor Alberto Fernández na Argentina.

Eleito presidente argentino por estreita margem em 2015, Macri esmerou-se na implementação de um ultraneoliberalismo econômico ainda capaz de encantar muitos desavisados pelo Cone Sul. A promessa macrista, claro, era de melhorar a situação dos argentinos em um momento no qual a inflação mostrava suas garras.

Macri fez o que pôde para desregular ao máximo os mercados financeiros locais, restringiu a capacidade dos trabalhadores argentinos de reaverem as perdas para a inflação, descongelou as tarifas públicas, liberou os preços dos combustíveis e adotou uma série de outras medidas aplaudidas pela mídia conservadora não só da Argentina como também do Brasil e pelos robôs de internet.

Muito ao contrário do prometido, porém, as medidas pesaram no bolso e na vida prática da população muito mais do que antes. Nada inesperado, diga-se.

O Poder Judiciário argentino não deixou por menos e resolveu aproveitar a onda de lawfare que vinha varrendo líderes populares pela América Latina desde 2009, quando Manuel Zelaya sofreu um golpe constitucional em Honduras. Eleita senadora, a ex-presidente Cristina Kirchner tornou-se ré por supostos atos de corrupção associados a seu governo.

Entre uma maldade e outra, Macri aproveitava para culpar o kirchnerismo por qualquer acontecimento negativo na economia. Não demorou, entretanto, para que o engodo ficasse claro e a Argentina voltasse a ficar de joelhos para o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Quando a crise estourou de vez, culpar Néstor e Cristina por todos os males argentinos já não fazia mais sentido para uma parcela considerável do eleitorado, mas a campanha estava logo ali e os assessores mais próximos de Macri trabalhavam incansavelmente para contornar a impopularidade do presidente, ainda que tudo não passasse de mera retórica reeleitoreira.

Paralelamente, os argentinos assistiram de camarote à implosão das instituições democráticas brasileiras, do golpe contra Dilma Rousseff e da implacável perseguição a Lula à fraude midiático-jurídico-eleitoral que levou Jair Bolsonaro ao Palácio da Alvorada. A observação do que ocorreu por aqui, permitiu à oposição a Macri tentar estratégias diferentes das adotadas pela esquerda no Brasil.

A principal dessas diferenças talvez tenha sido o fato de Cristina Kirchner, a carismática e incontestável líder da esquerda argentina, ter optado por compor a chapa justicialista como vice de Alberto Fernández mesmo com a perseguição judicial à qual é submetida.

O Poder Judiciário argentino, ao menos aparentemente, mostrou-se receoso de agir com toda a força contra Cristina com base em provas à primeira vista tão frágeis quanto ou até mais do que aquelas que levaram Lula à prisão.

Some-se a tudo o fato de os argentinos minimamente lúcidos terem assistido à ascensão de Bolsonaro no Brasil com o mesmo espanto observado em outras partes do mundo, talvez em um sinal de que o distanciamento ajude a enxergar com ainda mais clareza o fascismo, o racismo, a homofobia, a misoginia e a falta de humanidade do representante máximo da extrema-direita tupiniquim.

Logo depois de ter sido eleito e em mais de uma ocasião depois de assumir o mandato presidencial, Bolsonaro não apenas declarou seu apoio total e irrestrito a Macri como nomeou Cristina como uma “ameaça” comunista realizada apenas em alguma das muitas manifestações psicopatológicas da mente do atual mandatário brasileiro e de seus seguidores mais descompensados.

Do meio de sua irrefreável e rotineira verborragia escatológica, chegou a preconizar “hermanos argentinos” buscando refúgio no Rio Grande do Sul em caso de vitória da chapa Alberto Fernández-Cristina Kirchner.

O apoio de Bolsonaro a Macri aparentemente acendeu o alerta entre os argentinos em relação ao precipício diante do qual se encontram. Ainda que rezem pela mesma cartilha de “tudo para o mercado, nada para o povo” e criminalização da esquerda, o argentino tem buscado a menor proximidade possível com o vizinho inevitável e indesejado.

E não é à toa. Se no Brasil a popularidade de presidente brasileiro faz água na velocidade do derretimento das calotas polares, o apoio do capitão a Macri leva cada vez mais argentinos a mudarem o voto.

Em maio, o kirchenerismo já liderava as intenções de voto, mas dentro da margem de erro das pesquisas, com 38% a 36% sobre Macri. Logo depois de receber Bolsonaro na Casa Rosada, em junho, o apoio ao kirchernismo subiu a 41%, enquanto a candidatura de Macri derreteu, atingindo 28,5%.

A primeira confirmação empírica dos dados apontados pelas pesquisas de opinião veio em agosto, nas eleições primárias, também conhecidas como Paso. Alberto Fernández obteve 47% dos votos, ante 32% de Macri. Pesquisas posteriores ao Paso mostram a candidatura Fernández ainda mais forte e a de Macri, estagnada.

Como na Argentina um candidato é declarado vencedor em primeiro turno quando ultrapassa a marca de 40% dos votos com mais de dez pontos porcentuais de vantagem sobre o segundo colocado, a vantagem seria suficiente para uma vitória de Fernández sem a necessidade de um segundo turno.

À medida que Bolsonaro leva seu toque de anti-Midas para além de nossas fronteiras, será uma surpresa se os argentinos não demonstrarem nas urnas em 27 de outubro que aprenderam com a lição. Rejeitar Macri é rejeitar o ultraliberalismo.

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