Por que Doria não se fantasiou de homem-rã para trabalhar na enchente do Tietê? Por Kiko Nogueira

São Paulo, abril de 2017. João Doria não estava aqui
São Paulo, abril de 2017. João Doria não esteve aqui

 

Em 2012, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, fez uma promessa ao jornalista Joseval Peixoto: em três anos, o rio Tietê estaria tão limpo que ele o convidaria a pescar lambaris por lá.

Geraldo não operou o milagre dos peixes, como se sabe. Em compensação, tirou de sua costela João Doria, uma invenção à base de botox e marketing.

Os paulistanos acordaram na sexta feira, dia 7, com uma cena que se repete eternamente, como as faixas de um disco de Ivete Sangalo.

A chuva fez com que o defunto Tietê transbordasse e interditasse um trecho da Marginal. 

Três pontos transbordaram: Ponte do Piqueri, Barragem Móvel Montante e na Barragem Móvel Jusante. Carros não puderam transitar desde a Ponte das Bandeiras.

Motoristas de caminhões tiveram que subir no teto do veículo e o esgoto invadiu casas, ruas e escolas. O Bom Retiro naufragou.

O horror, o horror.

Ao contrário do que fez quando as chamas de um incêndio lamberam barracos na favela de Paraisópolis, Doria teve que dar as caras.

Curiosamente, o prefeito que tem fetiche por uniformes não estava fantasiado de homem rã. Em seu primeiro teste real, o “gestor” executou o número clássico de todo político: deu uma desculpa para enganar trouxa.

A conversa mole é a de que caiu mais água do que no tempo de Noé.

“Choveu em 24h o que choveria em 30 dias. Choveu 30 vezes mais do que a normalidade para um período desse”, falou, com eventuais variações sobre o mesmo tema. Avisou que ia abonar as multas de rodízio. E bola pra frente.

Ora.

Em março, Doria deslocou 30 milhões de reais de verbas de ações contra enchentes e para a construção de uma ponte e os enfiou na Secretaria de Desestatização e Parcerias, uma das vitrines de sua gestão.

As obras do Tietê são o grande legado dos governos tucanos. Há 23 anos há um projeto de despoluição, que já havia carcomido mais de 8 bilhões de reais até 2015 (a transposição do São Francisco saiu por volta de 10 bi).

O trecho que atravessa a capital paulista consumiu metade dessa quantia. Oficialmente, fala-se em mais dez anos até que aquilo volte a ser limpo, um prazo francamente fictício.

Haveria uma esperança de salvar aquela cloaca se gente como Doria se dedicasse a trabalhar um pouco ao invés de, por exemplo, gravar um jabá por dia.

Como isso não é da natureza do nosso menino sexagenário e nem de seu tio, resta ao cidadão mergulhar no caos, aceitar seu destino e rezar para que a precipitação da água das nuvens para a terra deixe de ocorrer.

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