Por que estamos perdendo de goleada (PT e correlatos). Por Walter Falceta

A cena ocorreu na Universidade Federal de Santa Maria, que recebeu a visita do ex-presidente do Lula, em março de 2018
PUBLICADO ORIGINALMENTE NO FACEBOOK DO AUTOR

1) Primeiramente, porque não aprendemos a lidar com o novo modo de produção.

2) Marx, se vivo, ia dar cascudo na sua cabeça. Teimoso! Mudou a realidade? Refaça a estrutura teórica. Dialética!
3) Os macacões azuis praticamente desapareceram. O sindicalismo de fábrica foi trocado pelo sindicalismo de “causas sociais” ou de “identidades”.
4) O sonho popular de ascensão deslocou-se da luta popular tradicional para o salão da igreja evangélica. A Teologia da Prosperidade seduz.
5) E, por vezes, produz um estímulo psicologicamente tão poderoso que resolve mesmo a situação do indivíduo.
6) Nenhum jovem quer mais bater ponto ou passar 9 horas do dia suando, diante de um torno mecânico.
7) Esse carinha prefere montar sua startup, desenvolver um videogame ou um sistema de compartilhamento de veículos urbanos.
8) Pronto! O universo do trabalhou mudou. Mas o PT e parte da esquerda insistem em falar para uma sociedade produtiva que NÃO EXISTE MAIS.
9) A direita soube dourar a pílula da precarização do trabalho, chamando de empreendedorismo a luta pela sobrevivência.
10) Mas isso nem de longe autoriza a demonização da iniciativa de quem monta um negócio. O Chicão da Hidráulica, na sua Pampa velha, correndo a cidade das sete da manhã até oito da noite, precisa ser visto e ouvido em seu modo produtivo.
11) E também nas suas aspirações. É preciso compreendê-las, na singularidade cultural dos emergentes e dos, agora, sobreviventes.
12) Ficamos de mal, demos o mindinho, para boa parte da juventude, aquela que buscou protagonismo em 2013 e começou a entregar o ouro para o bandido.
13) E talvez tenha se lançado nessa aventura porque se julgava excluída do processo político. O PT cuidou mal da formação de novos quadros.
14) O PSOL – esse amontoado de tendências – é um pouquinho mais atento a esse processo de inclusão. Mas seu trabalho ainda é raso e deficiente, especialmente na educação política.
15) Quando éramos poder, não compreendemos a MULTIDÃO e não tivemos humildade para confessar essa ignorância. Vamos ler Antonio Negri?
16) Ah, mas não mudou apenas a produção, agora automatizada ou realizada no estrangeiro. Mudou a regulamentação do trabalho. O “cada um por si” derrubou a determinação gregária e extinguiu a chamada “classe operária”.
17) A construção de um ethos do “eu” foi completada pelos “predestinados”, que surgiram da doutrina calvinista, no fundo, a base ideológica atrás de cada igrejinha evangélica.
18) Ah, sim, os evangélicos já são maioria, pelo menos entre aqueles que efetivamente se consideram religiosos praticantes.
19) O espírito comunal-comunista do catolicismo, realçado pela Teologia da Libertação, resiste em vagos e esparsos redutos. Talvez na base do pensamento do MST.
20) Somos extremamente arrogantes e prepotentes nas relações com a história. Desprezamos a leitura e as lições do tempo passado.
21) O “Inverno dos Descontentes”, no fim dos anos 1970, no Reino Unido, arrasou o Partido Trabalhista e deu impulso à insurgência conservadora. Resultado? A tragédia do thatcherismo.
22) Fingimos que 2013 se acabaria sozinho. Enfiamos a cabeça na areia para dissolver o drama.
23) Faz tempo – em “A Classe Operária Vai ao Paraíso” já se iniciava esse processo – que a classe trabalhadora tem ouvidos moucos para os megafones.
24) O modelo Vila Euclides ACABOU. Assim como o discurso Vila Euclides não se casa mais com a realidade. A dissonância cognitiva é a marca da relação entre a esquerda atual e seu suposto público.
25) A gente comum, que se enganava pela TV, agora se engana pelo smartphone, que define paradigmas em Itaquera, no Alemão, em Casa Amarela, na aldeia Xavante.
26) Disputamos mal, muito mal, esses territórios. A direita é sacana? É, lógico! Bannon é mesmo malvado. A Cambridge Analytica é desonesta. O Otpor é manipulador, assim como a Rede Globo. NED e IRI financiam guerra híbrida e revoluções coloridas. Estamos cansados de saber.
27) Mas não reagimos. Nossa comunicação ainda é a mesma. PESADA. E LENTA. Não sabemos lidar com os canais, mesmo aqueles disponíveis.
28) De novo, Antonio Negri, o filósofo… Perplexo ele diante da passividade do PT na disputa dos jogos da comunicação. Nada aqui de guerrilha receptiva. Ninguém leu ou acredita em Gramsci. Guattari, talvez? Tampouco…
29) O partido de Haddad e Tatto, profundamente conservador na gestão das mídias, lida mal e porcamente com seus canais convencionais de comunicação. Talvez ainda acreditem no poder de convencimento do gogó, da gritaria em cima dos carros de som da CUT.
30) Também não entendem nada de escala. De vez em quando, alguém diz: “precisamos voltar para a rua”. Sim, é necessário. Mas somente isso não basta.
31) Enquanto o militante vermelho perde horas para convencer um único mano do boteco, o trator digital da direita seduz milhares de eleitores.
32) Está certo o Mano Brown: precisa conversar de novo com a quebrada. Mas é investimento de longo prazo. É retomar o que o próprio PT fazia em seus primeiros 15 anos de vida.
33) Nossa síndrome de negação, desprezou toda a articulação digital que desembocou em movimentos como o MBL e o Vem pra Rua.
34) A velha “tática” costuma ser a do “não dá Ibope, não responde”. Bom, na era digital, se não respondemos, eles tomam o território, ocupam posições e engrossam seus exércitos.
35) Por preguiça ou arrogância, não disputamos narrativas. Fingimos que Bolsonaro era “ele”, o “Coiso” ou o “inominável”. Não lhe demos Ibope. E ele se elegeu presidente.
36) Sem as vacinas do discernimento, que não vieram da mídia tradicional, vastos setores da população embarcaram na onda do ódio anti-petista. Não reagimos de novo. A solução foi o recuo ao gabinete. Socorro nas bases eleitorais já constituídas – e envelhecidas.
37) Perdemos todas por exercer o direito à preguiça na hora errada e no lugar impróprio.
38) Resumo? Aquele mundo da classe operária não existe mais. Começou a dissolver-se no Ocidente ainda na década de 1970.
39) O modo produtivo é outro, assim como a regulação da atividade laboral. Desse modo, a centralidade no trabalho deslocou-se para as causas identitárias.
40) Do lado de cá, a comunicação parou no tempo. Primeiro, porque não compreende o aspiracional do cidadão comum. Ainda focamos em horizontes de sonho de 50 anos atrás. Em segundo lugar, porque gerimos mal os canais, escolhemos mal os conteúdos e somos péssimos na formatação da mensagem.
41) Adianta reclamar, avisar o partido? Adianta expor isso para as outras agremiações do campo progressista? Não! Há sempre um especialista de gabinete no comando, interditando o fluxo da novidade, colocando obstáculos à mudança, desdenhando da sugestão. São donos de cargos, CONSERVADORES, porque rejeitam qualquer mudança. E assim caminhamos céleres para trás. As lideranças são a vanguarda do atraso.

42) O novo sempre vem, como cantava Belchior. Mas antes que chegue e assuma seu lugar, ainda vamos receber nas costas o látego fascista e comer o pão amargo do fracasso.

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