Por que eu participo da Marcha das Vadias

O texto abaixo foi escrito pela jornalista Regina Faria. Ela participou da Marcha das Vadias na semana passada em Porto Alegre.

Mas afinal…por que elas têm que tirar a roupa?

Porque elas … querem! Isso mesmo. Só porque elas querem. Esse é o olho do furacão.

A Marcha das Vadias, com algumas de suas mulheres de peito aberto, vestidas de forma provocante, vem também escancarar que há duas posições que merecem ser respeitados: não querer fazer sexo E querer fazer sexo. E isso tem a ver com violência porque só pode não querer quem tem querer. Dois lados inseparáveis do mesmo tostão. Faz escolha quem pode. Quem não pode, obedece.

Por muito tempo esteve em vigor uma ordem que desejamos esquecer. “Tire a roupa que vou lhe usar”. Sim, senhor. “Ponha a roupa que não quero que lhe usem”. Sim, senhor. Esse roteirinho a mulher nunca escrevia. Assim, nunca dizia não. E um sim de verdade era algo transgressivo.

Já não admitimos que isso vigore, adeus anos 70. Mas exigimos mais. Queremos dizer sim, queremos dizer não, e queremos ser autoras que podem propor suas próprias falas sexuais, sem nenhum julgamento que nos diminua em nossa integridade moral. “Ah, mas hoje já é assim”, dirão. Então qual o sentido de dizer “lá vai um monte de mulher marchando pelada mas que, no fundo, no fundo, só tá querendo sexo?” Ué? Vamos decidir se tem ou não tem problema?

A autora em ação
A autora em ação

O problema aparece quando a decisão de sensualizar é da mulher. A sociedade toda, saturada de maiorias absolutas de homens no comando, usa o corpo feminino padrão para vender de tubos a supermáquinas. Bota dançarinas sensuais no Faustão. Mulher sambando nua na vinheta de carnaval. E tudo ok. Ninguém tira as crianças da sala. Ninguém vocifera babando.

Agora, a mulher se apropriar, ela mesma, do próprio corpo, para defender o que ela acha que seja certo…aí não. “Porque confunde a mensagem”, poderiam dizer. Bom, acontece. Mas por isso a gente ajuda. A gente até legenda. Na Marcha das Vadias, costumamos escrever na própria pele “Isto não é sobre sexo. É sobre violência”. Basta querer ler.

“Ahá! Agora você se contradisse. Se não é sobre sexo…”.. é porque é sobre o poder de querer e não querer sexo. É sobre o domínio do corpo e de sua subjetividade, mesmo. Não é um convite implicito pra você. Aliás, não é sobre você e seu desejo, não desta vez. As mulheres não estão com o corpo a mostra para dizer que querem sexo com quem lhes vê. Estão divulgando outra história. A história que elas querem, que não necessariamente é a que você quer. Por isso os corpos nus não são apenas aqueles do tipo considerado ideal. A mulher que tira a blusa não precisa estar no padrão, e isso em si já é revolucionário.

“Ok. Mas ao ver as mulheres qua acho bonitas, as que serão destaque no jornal, posso desejá-las”. Pode desejar à vontade. Eu olharia homens seminus, mas sem que meu olhar fosse aquela secadura invasiva tipo “não se mexa que meus escaner está no A42”. E isso se aprende. Mulheres aprendem desde cedo a olhar sem invadir. Eles também podem aprender. Junto com as lições todas de cuidados domésticos.

Aliás, colocando as crianças na roda, porque isso sempre vem à baila (tinha crianças na rua!)… se uma pequenina perguntar porque houve um desfile de lingerie na avenida Paulista, ou o porquê das dançarinas no tal programa estarem só de sainhas, dirão que publicidade “funciona” assim mesmo. “Homem gosta. Ajuda a vender. Infelizmente”.

Essa consciência, quando aparece, costuma ser bem tímida, um leve aborrecimento resignado. Nada que se compare ao mar de indignação com que se fala sobre as mulheres da marcha. Engraçado que amortecedor e mulher seminua tem bem menos a ver que uma mulher seminua protestando pela autonomia de seu próprio corpo, mas parece tãão mais difícil de correlacionar…

Fácil é repetir “quem quer respeito precisa se dar ao respeito”. Soa tão bonito quanto “direitos humanos para humanos direitos”. Parece fazer todo sentido. Mas não faz. Você dá seu amor, seu afeto, e até seu ódio a quem você acha que merece. É sua escolha. Mas respeito não é escolha. É dever. (Assim como direito humano não é merecimento, anote-se de passagem).

Não quero dizer com isso que você tem dever de achar a Marcha das Vadias bacana, a estratégia apropriada, a linguagem eficiente. Estou dizendo que a Marcha das Vadias faz um baita escarcéu para também dizer o seguinte: ainda que eu esteja nua, de shortinho enfiado ou de social chique: você não tem o direito de desrespeitar o meu “não” … e nem, tampoucou, o de desqualificar o meu sim. Esse respeito é que é dever. E já passou da hora de torná-lo trivial.

Enquanto esse descompasso não se resolver, um monte de mulheres empoderadas, que muitos chamarão de vadias, continuarão em marcha. Que prossigam os protestos.

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