Por que Jaques Wagner não gravou a conversa que teve com Eduardo Cunha sobre o impeachment? Por Paulo Nogueira

Um gravador resolvia tudo
Um gravador resolvia tudo

Por que Jaques Wagner não gravou a conversa que ele teve com Eduardo Cunha antes que o rei do cangaço poítico decidisse aceitar o impeachment?

Esta conversa foi postada hoje por Wagner no Twitter. Dada a biografia de Cunha, e os fatos conhecidos, ela é absolutamente crível.

“Eduardo Cunha nos disse que, se conseguíssemos votos para barrar a cassação dele no Conselho de Ética, ele não abriria o impeachment.”

Gravar conversas, em certas circunstâncias, pode ser imprescindível. Este era um deles.

Ah, é extremo demais, almas mais cândidas poderiam dizer.

Ora, ora, ora.

A melhor resposta está em Guy Fawkes, o rebelde católico britânico que tentou explodir o Parlamento britânico em 1605. Perguntado pelo rei Jaime por que planejara algo tão violento, Fawkes disse: “Situações extraordinárias pedem ações extraordinárias.”

Era uma situação extraordinária. Sabemos agora quanto era. Mas Wagner tinha a obrigação de saber no momento isso. Cunha é capaz de qualquer coisa. Os depoimentos de delatores mostraram que ele não hesitava em ameaçar famílias de gente que poderia incriminá-lo.

É mais uma das vacilações do PT num mundo em que a plutocracia é predadora acima de todos os limites.

Ao escolher juízes para o STF, Lula e Dilma fizeram opções pavorosas. Qualquer presidente em qualquer país opta por juízes afinados com seu pensamento. Rooseveld é um caso de estudo: só aprovou o New Deal quando pôs juízes progressistas na Suprema Corte.

Lula e Dilma puseram no STF desgraças como Joaquim Barbosa, Fux, Fachin e Teori. Este passará para a história como o gatilho mais lento do Supremo. Demorou quatro meses para aceitar o pedido de afastamento de Cunha, tempo suficiente para este liderar a seu modo a infame sessão da Câmara que selou o impeachment.

Você tem que agir de acordo com o seu adversário. O PT jamais fez isso. Seu adversário comprava o juiz e o goleiro, entrava em campo com treze jogadores, e o PT seguia regras que a plutocracia jamais respeitou.

Deu no que deu.

Tivesse Jacques Wagner agido de acordo com os padrões adotados por Eduardo Cunha, a democracia teria sido preservada — e não estaríamos agora enfrentando a calamidade chamada Temer.

Bastava um gravador, um miserável gravador.

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