Por que José Wilker foi um ator especial

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Eu costumo dizer aos meus amigos que independentemente do quanto a TV Globo possa ser questionável jornalisticamente, ela é inquestionável no entretenimento. Embora seja uma empresa nascida de um jornal, ela acabou se desenvolvendo muitas vezes mais na teledramaturgia, se tornando inclusive uma referência mundial.

É uma TV que soube identificar boa parte dos grandes talentos do teatro e atraí-los.

É verdade que nem todos poderiam se enquadrar na fórmula da novela. Os personagens, em geral, não são complexos como nós, mas estereótipos desumanizados. (A exceção costuma ficar nas adaptações dos grandes autores).

Assim, sobretudo atores com nível muito alto de inquietude criativa muitas vezes não conseguem se fazer caber ali.

Outros, no entanto, souberam criar uma divisão: na Globo, eles atuam, e com isso se utilizam das ferramentas que a empresa oferece (salário, estabilidade, prestígio); no teatro (ou no cinema), vivem os personagens mais interessantes e complexos.

Se este não foi o caso de alguns gênios inquietos como Zé Celso Martinez ou Renato Borghi, foi o caso de outros não menos geniais como Raul Cortez ou Fernanda Montenegro.

Por cinismo ou praticidade, eles fizeram sua opção e, provavelmente, têm (ou tiveram no caso de Cortez) a vida mais tranqüila por isso.

Esse também foi o caso de José Wilker.

Wilker foi um cara do cinema. De acordo com diversas entrevistas, não gostava de fazer TV, mas viu nela um aliado para poder fazer sua arte como gostava.

Sua estréia no cinema foi na adaptação de “A Falecida” de Nelson Rodrigues. O filme foi lançado em 1965, estrelado por uma jovem e linda Fernanda Montenegro. Entre sua estréia no cinema e na TV, passaram-se seis anos e seis filmes.

O jovem José Wilker obviamente não tinha a mesma naturalidade que o velho. Em “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, pode-se ainda notar um ator em construção. Ainda não está lá o Antônio Conselheiro de Guerra dos Canudos. Mas Wilker era bom, mesmo quando era ruim: Valdomiro é um papel fabuloso ainda que para um ator em desenvolvimento.

Independentemente de sua preferência clara pelo cinema, Wilker teve grandes momentos na TV. Participou com destaque das duas versões da icônica novela “Gabriela”; se não foi a própria Gabriela, provavelmente por ter pênis de mais para o papel, foi o próprio Roque Santeiro, personagem central da novela homônima, também icônica.

Quanto a mim, a primeira vez que o notei foi em Anos Rebeldes. Malu Mader era a diva inquestionável da novela (ou seriado?), mas Wilker tinha participação fundamental.

Posteriormente, meu interesse por cinema brasileiro, instigado pelo filme “Central do Brasil” de Walter Salles, tratou de apresentar outros grandes trabalhos de Wilker em filmes como “Um Trem Pras Estrelas”, “Guerra dos Canudos”, “Bye Bye Brasil” e “Dona Flor…”

Conseguir trabalhar com teatro, cinema ou mesmo com música sem a Globo é sim corajoso. Eu diria que é até heróico, e há de se celebrar essa virtude.

Mas para mim, não se deve julgar quem usa as ferramentas dessa TV tão polêmica. A vida de artista é extremamente difícil mesmo quando se usa de todas as ferramentas possíveis. Quando não se usa, fica quase impossível. É quase como querer construir um navio sem uma serra.

José Wilker morreu ontem vítima de um infarto fulminante. Foi um ator especial.

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