Por que Lula pediu o Hino da Independência após vitória na Paulista

Atualizado em 26 de outubro de 2026 às 12:43
O presidente Lula na Avenida Paulista após vitória no segundo turno. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de pedir a execução do Hino da Independência durante a comemoração de sua reeleição, neste domingo (25), na Avenida Paulista, em São Paulo, teve um significado político que vai além da celebração eleitoral. Ao recuperar uma das principais tradições de Leonel Brizola, ele associou sua vitória à defesa da soberania nacional e a uma concepção de patriotismo historicamente vinculada à esquerda brasileira.

O próprio Lula explicou a escolha diante da multidão. Ele contou que havia se emocionado no sábado (24), durante o encerramento da campanha, quando os manifestantes cantaram o Hino da Independência. Ao solicitar que a música fosse executada novamente, afirmou que o Brasil é um país soberano e “não cabe no quintal de ninguém”. A declaração recuperou uma expressão historicamente utilizada para rejeitar a submissão do Brasil aos interesses de potências estrangeiras.

A escolha também remete diretamente a Leonel Brizola, um dos principais nomes do trabalhismo brasileiro e defensor da soberania nacional. Durante décadas, o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro transformou o Hino da Independência em uma espécie de marca de suas campanhas e manifestações políticas. A tradição ganhou especial destaque na disputa presidencial de 1989, quando Brizola concorreu contra Lula e Fernando Collor de Mello.

Para Brizola, cantar o Hino da Independência significava reivindicar os símbolos nacionais para um projeto político comprometido com a autonomia econômica, a defesa das empresas públicas e a resistência à influência estrangeira. Era uma maneira de afirmar que o patriotismo não pertencia exclusivamente aos militares, aos conservadores ou à direita. A bandeira, o hino e a própria ideia de nação também faziam parte da história das lutas populares.

Essa tradição possui raízes na trajetória do trabalhismo brasileiro, especialmente nas experiências políticas de Getúlio Vargas, João Goulart e do próprio Brizola. A defesa das riquezas nacionais, do controle brasileiro sobre setores estratégicos e da independência nas relações internacionais ocupava lugar central nesse pensamento. O Hino da Independência funcionava como uma expressão musical dessas posições.

Há ainda uma dimensão histórica na escolha. A letra do Hino da Independência foi escrita pelo jornalista, poeta e político Evaristo da Veiga, em agosto de 1822, pouco antes da proclamação da Independência. A melodia consagrada atualmente foi composta por Dom Pedro I, em 1824. A obra tornou-se um dos símbolos da ruptura formal do Brasil com o domínio colonial português.

Seus versos mais conhecidos, “Já podeis, da Pátria filhos / Ver contente a mãe gentil”, celebram a emancipação política brasileira. O refrão, “Brava gente brasileira! / Longe vá… temor servil”, convoca os brasileiros a rejeitar a submissão. São palavras que, dois séculos depois, continuam permitindo interpretações políticas relacionadas à independência e à soberania nacional.

A presença do hino na comemoração de Lula também recupera uma característica importante da história da esquerda brasileira: a disputa pelo significado dos símbolos nacionais. Durante a ditadura militar e, mais recentemente, com a apropriação da bandeira e das cores verde e amarela pelo bolsonarismo, esses símbolos foram frequentemente associados a movimentos conservadores. A tradição de Brizola oferece outra leitura, na qual o patriotismo está ligado à defesa da democracia, dos direitos sociais e da independência econômica.

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