Por que Marina Silva não fala da sua negritude na campanha?

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Ela

Uma coisa na candidatura de Marina Silva chamou minha atenção. Não a vi destacar nesta campanha o fato de ser negra. Apesar de ter declarado no registro da candidatura ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que é preta, a questão racial aparece com discrição em sua campanha.

No discurso de lançamento da disputa à Presidência no pleito de 2010, Marina declarou que o Brasil poderia “ter a primeira mulher negra, de origem pobre, presidente da República Federativa do Brasil”.

Hoje essa ideia quase não aparece. Caetano Veloso, ao postar no Facebook seu apoio à candidata, toca no assunto. “A segunda mulher presidente e – detalhe de grande força que não tem sido lembrado – o primeiro postulante de pele escura”.

Filha de pai negro e mãe de pele clara (ela filha de mãe negra e pai branco), Marina tem uma biografia de superação. Apreendeu a ler aos 16 anos, trabalhou como empregada doméstica, teve hepatite, malária, leishmaniose e sofreu contaminação por mercúrio. Mesmo assim conseguiu estudar, concluir um curso superior e ingressar na política até se tornar a mulher influente de hoje.

O perfil no site oficial cita a origem miserável, mas não destaca o fato de Marina ser negra. Em um país onde mais da metade da população é preta ou parda e está excluída dos principais postos de liderança, ser negra não é uma característica para ser ignorada por uma postulante ao cargo de presidente da República.

O site lista 40 razões para votar em Marina. Entre elas estão o fato de conhecer a pobreza e de ser mulher. Citaram até obviedades com “dispensa o caixa dois”, como se isso fosse diferencial e não obrigação.

Sobre ela ser negra, nenhuma referência. O motivo de número 21 diz que ela é “contra a discriminação”, embora o texto explicativo seja vago: “acredita que os direitos civis, políticos e sociais devem ser garantidos a todos os cidadãos do país, sem qualquer tipo de discriminação”.

Deixar de mencionar a identidade racial soa estranho na campanha de Marina, principalmente por ser calcada em ideais de modernidade e mudança em relação a práticas políticas viciadas. Seria medo de perder votos junto à parcela branca da população? Este pensamento beira a tolice depois que Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos em 2008.

O político americano não se desviou do assunto, apesar da população negra ser minoria no país. Além disso, os ataques não partiam só de brancos radicais. Obama, cujo pai era queniano e a mãe branca, sofreu críticas de não ser negro e sim multirracial.  Obama respondeu que se identifica como afro-americano. “É como eu sou tratado e como eu sou visto. E tenho orgulho disso”.

Se Obama pôde assumir durante a campanha, por que Marina não poderia?

Na biografia “Marina – A vida por uma causa”, escrita por Marília de Camargo César, relançada agora, o assunto é tratado superficialmente. No livro, Marina diz que só conheceu o preconceito contra negros e mulheres quando mudou para a cidade.

Em outra passagem, ela afirma ser a favor da política de contas raciais nas universidades e admite ser uma exceção por ter estudado na universidade pública sem a ajuda das cotas.

Por que, então, Marina não leva a questão racial para o debate eleitoral? Ela pede, na sua fanpage, que os eleitores doem dinheiro para campanha ou tirem um tempinho para ajudar a desmentir boatos nas redes sociais. Por que não há posts pedindo votos a mulheres negras e com histórias de superação parecidas com a dela? Não são poucas a ponto dos seus votos não pesarem nas urnas.

Para Confúcio, “o silêncio é um amigo que nunca trai”. No caso de Marina, porém, silenciar sobre a própria cor da pele pode não ser a melhor estratégia na corrida ao Palácio do Planalto.

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