Por que Michel Teló e Psy são almas gêmeas

O coreano e o brasileiro têm mais coisas em comum do que supomos

Psy

“Ai Se Eu Te Pego” e “Gangnam Style” colocaram dois artistas num hall de celebridades mundiais que aparenta ser o mais nobre possível: o de hitmakers espontâneos. Sem mídia massiva, sem profissionais de relações públicas nos bastidores, os caras simplesmente fizeram sucesso porque as pessoas gostaram da música.

Mas será que é isto mesmo?

Existe uma quantidade enorme de elementos semelhantes nos dois vídeos – e na música também, por incrível que pareça. Vamos começar pelo começo: a música. Só a música, sem o vídeo. Ouça de olhos fechados, se precisar. E combinemos, antes de tudo, que não vamos julgar pelo nosso gosto. Sendo neutro, são boas músicas? Sim, as duas. Igualmente boas? Sim. Ambas melodiosas, com bom arranjo, boa voz. Nada de coisa de gênio, mas coisa decente. Um cheeseburguer do McDonald’s, digamos. É pior que o do Milk & Mellow, de São Paulo, e melhor que o da padaria.

As letras são questionáveis, as duas. Mas aqui vale a pena lembrar que quem fez esse sucesso tamanho foi gente que não entende o que eles estão falando. Nos dois casos. Eu já disse isso antes de Gangnam Style aparecer: é foneticamente engraçado para quem não entende.

Michel Teló

Aqui a gente já começa a entrar numa questão cultural. O charme dos brasileiros e o charme dos orientais também contribuíram.  Agora vamos abrir os olhos e assistir aos vídeos: a coreografia está lá. Elas são charmosas e desengonçadas e, sobretudo, fáceis. As mulheres bonitas também estão lá. De formas diferentes, pois o vídeo do brasileiro é ao vivo, mas no fundo, elas estão exercendo exatamente a mesma função – não, não é chamar a atenção, embora contribua para isso; é elevar “o valor social” do artista. Algo que Mystery, o teórico americano da conquista, acredita que seja uma forma de dizer, inconscientemente, “todas estas mulheres ‘disputam’ este cara, então ele deve ser bom em alguma coisa”.

Existe algo em comum no visual dos dois? Marcas do tempo no rosto, talvez. Acho também que atitude proativa mesmo não sendo um galã, cada um à sua forma.

O que me pergunto é: ninguém mais tem isso no mundo? Porque é relativamente fácil fazer isto. Eu poderia pegar um cara que canta na Sé, fazer um single e um vídeo com todos estes elementos que minha probabilidade de não dar certo como eles vai ser de 99,99%.

Vamos fazer um parêntese agora: ambos são artistas experientes, com muita rodagem. Ambos tinham o que costumeiramente  se chama de “base de fãs” – são as pessoas que vão mandar o vídeo pros amigos, pedir a musica no rádio, criar demanda por shows.
A idéia de que não havia relações públicas atuando nos bastidores então cai por terra. Aposte seu mindinho que ambos os lançamentos foram bem estruturados. Sabe o Neymar dançando o Ai Se Eu Te Pego na final da Libertadores? É este tipo de coisa que um bom relações públicas consegue para você.

Existem também dois fatores que não estão absolutamente claros para mim: o fator estratégia e o fator hacker. Nestes dois, nós não sabemos exatamente o que foi feito. Em estratégia, tudo pode, literalmente. Aliás, quando se institucionalizou o famoso jabá, aceitou-se que tudo pode. Se você paga para tocar no rádio, não tem por que não pagar para um hacker para fazer truques computadorizados e, por exemplo, inflar números de visualizações no YouTube.

Tudo que foi dito aqui é pouco para entender as semelhanças, diferenças e sobretudo, o sucesso destes dois superstars mundiais. Há uma série de variáveis, de alegorias, e até de coincidências temporais que eu não compreendo, ou compreendo pouco a ponto de não me sentir seguro em afirmar aqui.

Há uma verdade inquestionável, no entanto: há mais semelhanças entre os dois do que à primeira vista pode parecer.

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