Por que Moro deixou o combate à corrupção policial de fora do seu pacote anticrime. Por Sacramento

Juiz Sérgio Moro(foto: Nelson Almeida/AFP)

Não é novidade que a corrupção policial é um dos combustíveis da criminalidade. Facções como PCC e Comando Vermelho destinam quantias consideráveis para subornar policiais. Juntos, agentes que deveriam servir e proteger a sociedade formam milícias e exploram trabalhadores.

O ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro, segundo matéria publicada no Valor poucos dias depois da sua posse, vê esse problema como um dos principais entraves na execução de políticas de segurança pública.

Impressiona, então, por que Moro não destacou a corrupção policial nas 34 páginas do pacote de leis anticrimes criado por ele.

Na súmula onde Moro propõe medidas para endurecer as penas e aumentar o encarceramento inexistem propostas efetivas para combater práticas como extorsão e cobrança de propinas por parte de policiais e outras categorias de profissionais da segurança pública.

Qualquer pessoa com algum contato com os bastidores das polícias conhece histórias envolvendo proteção a criminosos, desvios de armas e drogas apreendidas, facilitações de fugas e outros delitos mais ou menos graves.

Ocorrências como a prisão em dezembro do ano passado de 53 policiais de São Paulo acusados de colaborar com o PCC estão aí para provar que a única diferença do universo dos filmes Tropa de Elite 01 e 02 com a realidade é o rosto do envolvidos, mais fotogênicos nas telas que no mundo real.

No fim de 2017, o procurador José Maria Panoeiro foi convocado pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, para investigar a atuação de organizações criminosas no Rio de Janeiro. Em entrevista à BBC Brasil a respeito da missão a que foi incumbido com mais quatro colegas, Panoeiro dá a dimensão do papel da corrupção policial na cadeia do crime organizado.

“Sem querer generalizar, mas há uma série de atividades onde aparecem agentes do Estado dando cobertura a criminosos, recebendo remuneração de criminosos. E isso fica patente em algumas operações que você tem, com as Forças Armadas cercando determinados territórios, com informes sobre a existência de fuzis, e no final das contas a apreensão é ínfima, beira o ridículo, ou não há nenhuma apreensão. O que significa que houve vazamento de informação. E vazamento da parte de quem? Só pode ser da parte de agentes do Estado.”

Ele cita, na entrevista, o caso de um inspetor de polícia, assalariado, que fretou um avião particular para viajar no fim de semana. “Se você tem um agente policial, um inspetor de polícia com um salário que gira em torno de R$ 4 mil, R$ 5 mil, R$ 6 mil, R$ 8 mil que seja, esse sujeito não tem condições de alugar um jatinho para ir passar um final de semana em uma cidade no interior de São Paulo.”

Do alto do posto que ocupa, Moro tem a obrigação de conhecer essas histórias e o dever de buscar soluções para que elas não se repitam.

Mas quando o assunto envolve forças policiais, a única preocupação de Moro parece ser garantir a segurança jurídica dos agentes no emprego de tiros, porradas e bombas.

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