Por que o pibinho de Guedes será mais letal que a burrice de Bolsonaro. Por Donato

Paulo Guedes (Carl de Souza/AFP)

Ainda não é possível saber quanto o coronavírus custará para um país, pois todos estão ainda em meio ao surto.

No entanto, já dá para dimensionar quanto tem custado o enfrentamento da doença naquelas nações que estão há mais tempo sofrendo com a pandemia.

No último domingo, enquanto Bolsonaro estimulava a aceleração do contágio por aqui, a Itália anunciava um pacote de 25 bilhões de euros, sendo boa parte em recursos adicionais (atenção: “recursos adicionais”) para o sistema de saúde.

Já é consenso que os custos com despesas na área da saúde, no final das contas, serão menores do que o tamanho do tombo da economia como um todo.

Mais uma vez tomando a Itália como referência: economistas, entre eles Lorenzo Codogno, ex-chefe do Tesouro, já contabilizam uma redução do PIB italiano em 15%, nesses menos de dois meses desde que o vírus desembarcou no país.

Os cálculos de Codogno levam em consideração as reduções na produção industrial, no comércio e demais fatores em consequência das restrições impostas pelo isolamento das pessoas.

Redução de 15% em dois meses. Agora projete isso para seis meses ou, quem sabe, um ano.

Para comparação: o PIB italiano é pouca coisa maior que o nosso (R$ 8,9 tri contra R$ 7,3 tri). Contudo, a população italiana equivale a menos de um terço da brasileira (28%). São 60 milhões de pessoas lá e 209 milhões aqui. Dá um PIB per capita 5 vezes maior.

É aí que a economia esquálida propiciada pelo Posto Ipiranga fará muita diferença. O Brasil regrediu 10 anos nesses 13 meses de desgoverno. E as medidas anunciadas por Paulo Guedes para ajudar no combate ao coronavírus são mera retórica.

O pacote divulgado anteontem pode, pelo montante, encher os olhos dos leigos. Na prática, ele é medido pelo “impacto”, não tem nada a ver com “enfiar a mão no cofre” e despejar recursos adicionais. É mero diversionismo, na maior parte. Explico:

O valor divulgado por Guedes foi R$ 147,3 bilhões. Número grande. Contudo, a maior parte trata de adiantar recursos que já são mesmo do cidadão. 13º salário, abono salarial, saque do PIS, enfim, o que já era seu mesmo, leitor.

Uma outra parte do pacote considera a prorrogação do pagamento de tributos. Será possível pagar o Simples Nacional, por exemplo, daqui a 3 meses.

Nada disso altera o Orçamento, percebe? Um dinheiro que é recolhido antes (impostos) será recolhido depois. E um dinheiro que seria retornado ao cidadão depois (13º, abono, etc) será antecipado. A ordem dos fatores não altera o resultado, regrinha básica da matemática.

O total desse volume de dinheiro é simples inversão no fluxo de caixa. Ponto. Ajuda? Talvez, mas o que acontecerá quando as pessoas lembrarem que gastaram essa antecipação na emergência e no final do ano não terão nada para receber?

Para piorar, as demais medidas que sobram (como liberação de crédito para empresas) baseiam-se em contradições. Para funcionarem, elas precisariam contar com a circulação de pessoas, comprando, vendendo, alugando, consumindo. Algo que, como se sabe, é exatamente o contrário das recomendações do próprio Ministério da Saúde.

O valor que pode, de fato, ser considerado como atitude de “meter a mão no bolso” para ajudar na guerra ao vírus, são os R$ 5 bi destinados para a Saúde, anunciados anteriormente e que não fazem parte do cálculo do “impacto” dos R$ 147 bi do novo pacote. Nem poderiam fazer parte do cálculo porque, aquilo lá é “impacto”, apenas isso, nada mais.

R$ 5 bi, isso é tudo o que o fiasco da política econômica de Guedes do ano passado permite investir.

R$ 5 bi, é bom? Melhor que nada, mas é preciso levar em conta que as projeções mais otimistas (que consideram em 1% os casos graves necessitados de internação) estimam em R$ 1 bi o custo só com os casos que necessitem de UTI.

Esse valor é resultado do custo médio de internação em UTI no SUS durante o ano passado, em condições semelhantes: R$ 11.296,00 por pessoa.

Se os mais alarmistas tiverem razão e os casos de internação chegarem a 10% (e o Centro de Contingência do Coronavírus, coordenado por David Uip, trabalha com esse cenário), estaremos falando em R$ 10 bi.

Os cinco bilhões empenhados pelo governo não cobririam nem metade dos custos só com UTI, sem contar as internações normais, medicamentos etc.

Muitas projeções feitas utilizam como parâmetro o que está ocorrendo em países como Itália ou Espanha.

Mas o Brasil tem uma série de dificuldades adicionais: falta de saneamento para 48% da população; Uma concentração humana enorme vivendo em minúsculos barracos nas favelas; Dos 5.570 municípios brasileiros, menos de 10% têm pelo menos um leito de UTI. Sem falar nos tantos que não têm nem médicos mais, graças ao nefasto bolsonarismo que mandou os cubanos embora.

Metade dos brasileiros “vive” com R$ 413,00 por mês. A estagnação de uma economia que já rasteja na lama, poderá nos levar ao caos social.

Todos os bancos reviram suas projeções para o PIB deste ano, ignorando por completo os devaneios de crescimento de Paulo Guedes. O Credit Suisse prevê 0% para 2020. Isso, zero.

Os gráficos comparativos com a Itália demonstram que a evolução aqui está se dando em velocidade muito maior. No 21º dia desde o primeiro caso confirmado, temos quase o dobro de pacientes do que havia no país da pizza na mesma data (291 contra 155).

Enquanto débeis mentais tentam fazer de conta que a pandemia “não é tudo isso” e Paulo Guedes permanecer invertendo os fatores acreditando com isso mudar o produto da soma, estaremos caminhando para tempos muitos difíceis. Piores do que já seriam.

 

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