Por que o tratamento precoce com cloroquina causou o caos na luta contra a covid. Por Flor Ernestina Martinez

“Capitã Cloroquina” na CPI da Covid. Foto: Reprodução/TV Senado

Pela intensidade da defesa, fica muito claro que a estratégia principal, senão a única, de enfrentamento da pandemia deste governo foi o mal denominado “tratamento precoce”.

A pergunta que ainda não está clara e que os senadores devem se esforçar para esclarecer é por quê?

A pandemia gerou problemas não só na saúde, mas também na economia.

É muito difícil focar na economia se o problema sanitário não está controlado. Então, se o governo realmente quisesse solucionar algo teria de se esforçar em construir estratégias múltiplas capazes de impactar o problema em diferentes níveis.

Para todos nós, o objetivo obvio seria fazer o necessário para terminar a pandemia e a pergunta que ficaria seria: como? Usando quais ferramentas?

Antes de mais nada, é necessário concordar que não estamos falando de uma fotografia de hoje. Estamos falando de um filme que já dura 15 meses e que com algumas ações poderia tomar um novo rumo na medida em que novos conhecimentos, novas ferramentas fossem colocadas a disposição.

Vamos a alguns exemplos.

Uma vez que se sabe que a transmissão é por ar o uso de máscaras devia ter sido incentivado, promovido, sendo em todos, um consenso.

Uma vez que se identifica a alta transmissibilidade a necessidade de distanciamento social deveria ter sido um consenso também.

Na medida em que foi conhecido que o SARS-CoV-2 produzia infecção sem doença em cerca de 30% dos casos e doença sintomática leve em mais 55%, casos moderados e graves 10% e críticos em 5%, estratégias para cada um destas formas de apresentação clínica deveriam ter sido montadas.

Ah! Mas como saberíamos quem ia evoluir de uma ou outra forma?

A resposta é o acompanhamento.

Se os agentes de saúde que soubessem de um caso fizessem a visita domiciliar diária medindo temperatura, frequência respiratória, oximetria, eles além de orientar a população sobre o isolamento em casa, ainda poderiam orientar as autoridades.

Também poderiam ter aplicado testes rápidos em sintomáticos, e ou orientar a busca ativa em contatos e o isolamento social.

Esta ação ajudaria a facilitar o acesso de casos moderados serem avaliados por equipes especializadas sobre a necessidade de internação.

Não existe tratamento específico antiviral identificado até agora fora do ambiente hospitalar e muito foi aprendido para diminuir a letalidade da doença nas formas críticas desde que os pacientes tenham oportunidade de chegar a um centro especializado.

Conforme o tempo passou e as vacinas começaram a ser uma possiblidade real, o foco deveria ter sido principalmente este, inclusive com o destino de recursos muito maior, inclusive com a possiblidade de gerar as próprias vacinas.

Dito isto então algumas perguntas ainda estão sem resposta;

  1. Por que a insistência no kit covid em detrimento de estratégias mais baratas como o uso de máscaras que poderiam ter sido distribuídas a população ensinando sobre seu uso adequado?
  2. Por que não valorizar a utilidade do isolamento social quando ele era necessário?
  3. Fica a dúvida se isto foi por desconhecimento ou foi proposital e a pergunta seria então, qual era o objetivo, aonde queriam chegar no manejo da pandemia?
  4. Queriam atingir imunidade coletiva apesar de saber que isso custaria a vida de milhões de brasileiros?
  5. Alguém deve comparar quanto o governo gastou em tratamento precoce e quanto em consecução de vacinas.Flor Ernestina Martinez é médica e atua nos estados da região Norte.

 

 

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