Por que os chineses são os piores turistas do mundo (depois dos americanos)

Apesar dos manuais distribuídos pelo governo, deve levar algumas gerações para eles melhorarem o comportamento

 

"Nós estamos tão acostumados com alguns maus hábitos que nem os consideramos impróprios", diz um guia turístico

O texto abaixo foi publicado, originalmente, na versão em inglês do site chinês China Daily.

Em setembro, um voo com 200 pessoas de Zurique para Pequim teve que esperar quatro horas para pousar depois de dois passageiros chineses entrarem em uma briga. Segundo relatos, a confusão começou quando um homem de 57 anos, embriagado, bateu na cabeça de um jovem porque ele se recusou a colocar seu assento na posição vertical, enquanto a refeição estava sendo servida.

“Quando dei por mim, os dois estavam lutando no chão”, disse Valerie Sprenger, guia de turismo. Um membro da tripulação e outro passageiro contiveram o senhor, atando suas mãos e colocando-o na parte de trás do avião, onde ele gritou por uma hora, disse Sprenger. Após o desembarque em Zurique, a polícia levou os dois chineses em custódia, e um promotor local multou o agressor por “minar a segurança do transporte público”.

O incidente, que foi manchete em todo o mundo, é mais um golpe contra os viajantes chineses e vem na esteira de uma pesquisa sobre os “piores turistas do mundo”. Segundo a empresa americana de e-commerce Living Social, os chineses estão no segundo lugar como os piores turistas do planeta, atrás apenas dos americanos.

Em um post que se tornou viral, um executivo de televisão chinês lamentou o comportamento de seus compatriotas, “indecoroso ao embarcar numa balsa de Cingapura para a vizinha ilha de Bintan, na Indonésia”.

“No momento em que os portões se abriram, todos correram para o convés”, escreveu ele em 6 de outubro. “Eu ouvi as vozes de dois estrangeiros presos no meio da multidão. Um perguntou: ‘Será que este barco não tem lugares marcados para todos nós?’ Apesar de ser empurrado para a frente pelos passageiros, eu ponderei com um pouco de amargura. Com bilhetes já em nossas mãos, do que temos tanto medo?”

Os esforços para incutir melhor comportamento entre os turistas chineses vêm sendo feitos há anos. Em outubro de 2006, estimulado por relatórios desfavoráveis ​​na recém-inaugurada Disneylândia de Hong Kong, o Ministério do Turismo emitiu manuais para os viajantes. A versão internacional, intitulada Manual de Comportamento Apropriado Para Os Cidadãos no Exterior, também procurou resolver reclamações online.

Entre suas diretrizes estão: manter a higiene pessoal (ou não tirar meias ou sapatos em público). Não falar alto demais. Tratar as pessoas com cortesia e humildade. Esperar a sua vez na fila. Comer calmamente. Dar lugar às senhoras, idosos e crianças. Proteger o meio ambiente (não cuspir no chão ou fumar em áreas para não-fumantes).

Os manuais foram divulgados para as agências de viagens chinesas, guias turísticos, bem como escritórios de companhias aéreas.

Meia década depois, os chineses tornaram-se alguns dos mais cobiçados turistas por sua vontade de ver o mundo – e fazer compras. Este ano, espera-se que eles farão 80 milhões de viagens ao exterior, gastando 80 bilhões de dólares, de acordo com a Academia de Turismo da China. Isso significa um chinês para 13 viajantes internacionais em 2012.

Seu poder de compra levou a modificações na maneira de hospedar e nas práticas da indústria de varejo. Hotéis ocidentais começaram a fornecer quartos com uma chaleira, macarrão instantâneo e pauzinhos. Alguns criaram sites e menus em mandarim e a entrega de jornais da China.

Os operadores turísticos têm incorporado visitas a lojas de outlet em seus itinerários, enquanto lojas de artigos de luxo na Europa e nos Estados Unidos contrataram funcionários chineses.

Mas o que mudou no comportamento dos chineses nos últimos anos?

Não muito, se você perguntar a Yang Bo, um operador turístico de 37 anos de idade, que tem acompanhado grupos no exterior desde 2000.

“Ficamos tão acostumados a determinados comportamentos que mal notamos como eles são impróprios”, diz. Mas Yang diz ter visto também como a educação e a experiência de turismo têm contribuído para uma conduta melhor. O dinheiro também pode significar mais sofisticação e boas maneiras, mas às vezes se traduz em postura, como querer comprar itens que são apenas para exibição, diz Yang.

Liu Jie, 29, guia há quatro anos, acha que eles precisam mostrar mais respeito por outras culturas. “Os turistas chineses costumam mostrar desdém e arrogância para com os costumes de outro país, fazendo-me passar vergonha”, diz. “Minhas impressões mais fortes vêm de sua atitude para com a ordem pública.”

As pessoas que viveram na China sabem que a ordem pública não é sua maior força. Atravessar a rua de qualquer jeito é a regra, não a exceção. Motoristas são propensos ao excesso de velocidade e a manobras tresloucadas. Carros estacionam em ciclovias, deixando ciclistas a pedalar ao lado de carros, ônibus e triciclos. Durante a hora do rush, os passageiros se acotovelam a caminho de ônibus, carros e metrô. Brigas entre motoristas são comuns. Filas ordenadas são uma raridade. Os estrangeiros que vivem no país são obrigados a aprender mais do que a língua ou os hábitos alimentares. Basta perguntar a Ana Ropot, natural da Moldávia, em seu sétimo ano na China. A estudante de pós-graduação, também modelo e atriz, experimentou o momento mais constrangedor de sua vida durante uma viagem a Sydney neste verão.

Ela estava ocupada trocando mensagens de texto em seu celular quando foi surpreendida por carros buzinando e pessoas gritando para ela. Foi só então que percebeu que estava parada no meio de uma rua. “Eu nunca fiquei tão envergonhada na minha vida. E o pior era que eu não me preocupei mesmo em olhar para o semáforo”, diz ela. “Acho que foi tempo demais fazendo isso na China”.

O problema de Pu Zhengzhang é que ele havia morado fora por muito tempo. O psiquiatra infantil de Pequim, que viveu nos EUA e em Hong Kong durante 17 anos, afirma que sofreu um “choque cultural” ao se mudar de volta para o continente em 2009. Além da dificuldade para se reajustar às práticas de trabalho locais, a falta de consideração entre as pessoas também o incomodava, assim como a mania de falar alto em público, tirar os sapatos durante um vôo e os espirros sem cobrir o nariz. Para evitar ficar em situações desconfortáveis, Pu diz que evita ir aonde haja ”muitos locais”.

Mas ele ainda tenta ser atencioso em público – abrindo portas para os outros, por exemplo, mesmo que tais gestos não sejam reconhecidos. “Ainda que eles não falem ‘obrigado’, eu vou continuar fazendo isso. Eu não quero culpar essa cultura. Quero mostrar um bom exemplo.”

Em última análise, nós somos, em terras estrangeiras, os mesmos que em casa. Os manuais foram emitidos em 2006, mas os especialistas dizem que pode levar várias gerações até que os turistas chineses adotem um comportamento correto – e tenham uma imagem positiva.

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