Por que os cultos de matriz africana são alvos da intolerância religiosa?

Da Rede Brasil Atual:

Tudo começou com dois carros incendiados. Primeiro o da sacerdotisa Maria da Conceição Cotta Baptista, a mãe de santo Conceição d’Lissá, que estava quebrado na garagem. E depois o do filho, comprado zero quilômetro e com menos de um mês de uso. Os ataques aconteceram no início da madrugada. Não deixaram ninguém ferido, mas um prejuízo financeiro sem tamanho. Passado um tempo, foram disparados tiros contra sua casa e contra ela própria, que felizmente erraram o alvo. No dia seguinte, o barracão foi alvejado. Ficaram nove buracos de bala. Ninguém foi atingido, só que a violência dos episódios assustou muitas pessoas, que decidiram se afastar das atividades do terreiro.

As agressões, ao longo de oito anos, tiveram o ápice em 26 de junho de 2014, quando um incêndio criminoso destruiu todo o barracão da Casa do Criador, que Mãe Conceição coordena em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Móveis, eletrodomésticos, roupas de santos e de integrantes dos trabalhos foram consumidos pelas chamas, que também abalaram a estrutura da laje. Seriamente comprometida, teve de ser demolida. Outro grande prejuízo. Durante um ano, nenhuma atividade religiosa pode ser realizada ali.

“Em todos os ataques, sempre fiz boletim de ocorrência logo após. Havia até boa vontade da polícia, mas apesar da materialidade dos fatos, não foi identificada a autoria em nenhum deles. Todas as possibilidades aventadas e investigadas não deram em nada. Para nós, fica a incerteza, a insegurança, a impotência diante disso tudo, porque a gente não conseguiu que ninguém fosse punido, e essa é a grande questão”, conta Mãe Conceição.

O alento veio com uma campanha liderada pela pastora Lusmarina Campos, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, que em abril do ano passado entregou os R$ 12 mil arrecadados para a reconstrução do terreiro. Noticiada no mundo inteiro, a solidariedade é um contraponto ao acirramento do ódio que, segundo Mãe Conceição, é uma das principais causas desse tipo de violência.

De cinco anos para cá tem havido paz na Casa do Criador – o que não acontece em outros terreiros. No início de agosto, o Ilê Axé de Bate Folha, também em Duque de Caxias, foi invadido por traficantes, que destruíram todas as imagens e oferendas e ameaçaram de morte a mãe de santo, que buscou refúgio na casa de parentes, fora do estado. Há mais de um mês, a polícia identificou Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, do Terceiro Comando Puro (TCP), como mandante da escalada de crimes de intolerância na Baixada Fluminense. Foram presos oito traficantes acusados de integrar o grupo Bonde de Jesus, criado por ele.

A Baixada concentra 35% dos 200 ataques registrados de janeiro a setembro deste ano em todo o RJ segundo a Comissão Estadual de Combate à Intolerância Religiosa e o Racismo, coordenada pelo babalaô Ivanir dos Santos. O sacerdote, que há 12 anos organiza a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, que ocorre em Copacabana, zona sul do Rio, foi reconhecido em agosto pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos com o Prêmio Internacional de Liberdade Religiosa.

Ocorrências como essas equivalem a praticamente 60% de todos os casos de intolerância religiosa registrados de 2011 a junho de 2018. Levantamento da organização Gênero e Número, com base em dados do Disque 100, indica, mais precisamente que 59% dos registros eram relativos a religiões como a umbanda e o candomblé; 20% a religiões evangélicas; 11% a espíritas; 8% a católicos; e 2% a ateus. O Disque 100, hoje no âmbito do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, chefiado pela evangélica Damares Alves, foi criado em 2011 pela então Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Embora os espaços dedicados à devoção dos santos e orixás sejam atacados em uma proporção três vezes maior que as igrejas evangélicas, e as mesquitas e sinagogas nem apareçam na lista, Jair Bolsonaro (PSL) enxerga a realidade por uma lente tendenciosamente distorcida. Apoiado por pastores conservadores, que não representam a totalidade do segmento evangélico brasileiro, o presidente ignorou totalmente o problema em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU em 24 de setembro. E sinalizou preocupação com outro tipo de ataque.

No texto lido por ele, “a perseguição religiosa é um flagelo que devemos combater de forma incansável”. E que nos últimos anos ocorreram, em diversas regiões, “ataques covardes que vitimaram fieis congregados em igrejas, sinagogas e mesquitas”. Além disso, que “o Brasil condena energicamente todos esses atos e está pronto a colaborar com outros países para a proteção daqueles que se veem oprimidos por causa de sua fé. Preocupam o povo brasileiro, em particular a crescente perseguição, a discriminação e a violência contra missionários e minorias religiosas em diferentes regiões do mundo. Por isso apoiamos a criação do dia internacional em memória das vítimas de atos de violência baseado em religião ou crença. Nessa data recordaremos anualmente aqueles que sofrem as consequências nefastas da perseguição religiosa. É inadmissível que em pleno século 21, com instrumentos, tratados e organismos com a finalidade de resguardar direitos de todo tipo e de toda sorte, ainda haja milhões de cristãos e de pessoas de outras religiões que perdem sua vida ou sua liberdade em razão de sua fé”.

Além da fé

A perseguição totalmente ignorada por Bolsonaro vai além de uma questão de religião, que assim como futebol e política, tem de ser discutida. Sua origem está no racismo que acompanha o povo negro há cerca de cinco séculos, desde que chegou ao Brasil escravizado, muito antes do ciclo da cana-de-açúcar.  “O que está por trás de toda essa ‘demonização’ dos terreiros e de seus adeptos é o racismo estrutural e estruturante, que configura mais uma face do genocídio contra a população negra. É mais uma forma de extermínio”, avalia Mãe Conceição D´Lissá.

Ela acredita também que tudo poderia ser diferente caso o modelo de colonização do Brasil não tivesse sido baseado na mão de obra escrava. “Muito provavelmente haveria uma outra doutrina, outra forma de lidar com essa diversidade. Essa questão é muito maior do que parece. Somos um país de escravizados, de colonizações que norteiam, por exemplo, a nossa política atual, para que voltemos a ser colônia, para que sejamos explorados. Os ataques aos terreiros parecem ser questão religiosa, de dogma religioso, mas não são. São uma questão de luta de classe, de projeto de poder”, diz.

Outra razão é o modo de vida dos praticantes dessas religiões. “Não é simplesmente ir à igreja e rezar. Vivemos nossa fé e cultura 24 horas por dia. Continuamos fazendo conforme ensinamentos ancestrais. Algo como também fazem os indígenas, os ciganos, igualmente perseguidos. Isso é contestador. É resistência à prática de extermínio daquele que, em tese, é diferente da corrente hegemônica. É mais uma face do extermínio que se dá também por meio da negação ao direito à educação, à saúde, à alimentação, trabalho, moradia. Não é à toa que matamos mais aqui no Brasil do que se mata em guerras no Oriente Médio. E a maioria dos que são assassinados aqui são negros.”

E tudo isso, segundo a sacerdotisa, dentro de um Estado laico – não ateu. O que pressupõe que, embora não haja uma religião oficial, nenhuma entre aquelas praticadas pode ser questionada e perseguida. Significa reconhecer a religiosidade praticada há pelo menos 11 mil anos pelos povos indígenas, o fato de a maior população católica do mundo estar no Brasil apesar do crescimento do número de igrejas evangélicas pelas periferias de todas as cidades do país. E também o direito que os afrodescendentes têm de praticarem sua fé. Com liberdade e respeito.

“Constitucionalmente o país é laico, mas faltam condições para que as diferentes correntes religiosas possam conviver em harmonia. Além disso, alguns grupos prevalecem inclusive no poder. Prova é a lei do ensino religioso para as escolas públicas, aprovado pela bancada evangélica. O filho do pobre é obrigado a ter aula de religião. O do rico não tem de passar por essa lavagem cerebral. Existe um grupo político, empoderado pelos evangélicos, definindo as prioridades inclusive na área da educação”, afirma Mãe Flávia Pinto, sacerdotisa, socióloga e ativista dos movimentos negro e de gênero, que coordena o Centro Espírita Casa do Perdão, em Campo Grande, Rio de Janeiro.

Mãe Flávia é mais uma voz a se levantar contra a escravidão – o maior genocídio da história da humanidade, segundo ela, que quando não exterminou, manteve gerações cativas ao longo de 400 anos só no Brasil – como causa do racismo religioso. “O povo judeu foi perseguido durante toda a sua existência, mas o epicentro do holocausto foi de 6 anos, entre 1939 e 1945. Além dos 400 anos de escravidão do povo negro, há ainda 131 anos de semi-escravização. No curto período ‘democracia brasileira’, os negros continuam na mira de todo tipo de violência. E isso explica o comportamento colonizador na mentalidade nacional, o que faz com que tudo aquilo que venha do negro, assim como do indígena, seja recriminado, discriminado e repugnado.”

Nesse caldeirão junta-se o ódio, segundo a sacerdotisa, que faz coro às declarações da mãe de santo Conceição d’Lissá, da Casa do Criador. Há séculos, o sentimento orientava o pensamento euro-cristão, voltado à dominação mercantilista que desencadeou invasões coloniais e a submissão de povos originários, impondo uma nova religião em meio à estrutura de poder e pensamento em substituição à “falta de alma” dos “bárbaros”. “Hoje isso se dá em uma forma de ódio puro, declarado, que ganha força com o discurso disseminado pelas igrejas neopentecostais eletrônicas. Esse mesmo discurso violento, autoritário e homofóbico, que levou à eleição de Jair Bolsonaro, leva pastores de igrejas próximas a terreiros a pregarem ‘que o diabo está bem em frente da gente’. Nós não temos como chegar a todos os lugares, mas eles podem chegar onde querem, porque têm canais de TV”.

“Essa religiosidade que fortaleceu os povos ninguém tira de nós. Bateram, estupraram, mataram, mas não tiraram a religiosidade. A gente resistiu fazendo o que a gente sabe fazer: cuidando da nossa vida através dos elementos da natureza”, ressalta

Senzalas modernas
As pregações praticamente 24 horas por dia na TV, as quais dedicam boa parte do tempo a associar divindades da fé de origem africana ao demônio, chegam a toda parte, inclusive no crime e nas prisões, onde estão muitos aliados desse projeto de poder ao qual Mãe Flávia se refere. Ela explica que o recrutamento e treinamento desse exército que mais tarde irá depredar e incendiar terreiros, entre outras coisas, é possível graças à associação do pensamento religioso com o tráfico de drogas, numa articulação que lembra em muitos aspectos a fundação do Estado Islâmico.

Em sua comparação, Abu Bakr al-Baghdadi, seguidor de Bin Laden, guarda muita semelhança com os jovens brasileiros encarcerados. Jovens, de baixíssima escolaridade e sem perspectivas de vida. Uma mentalidade propícia a qualquer ideologia fanática. “Entra um discurso fanático dentro desses presídios, senzalas modernas no país que tem a terceira maior população carcerária do mundo. A gente não observa o que acontece, mas a igreja chega lá, alcança algumas lideranças traficantes e coloca esse discurso fanático.”

É por isso que os terreiros, construídos nos subúrbios onde os custos são mais baixos, acabam reféns do poder local, ou seja, o tráfico ou a milícia. “Se você não incomodar o poder local, não haverá danos. Mas se estivesse em outro lugar de disputa entre duas facções específicas atuantes no RJ, publicamente convertidas e com problemas com as religiões de matriz africana, talvez eu não pudesse sobreviver”, diz.

Demônio
A perseguição aos terreiros e adeptos da umbanda e candomblé está longe de ser uma invenção dos pentecostais e neopentecostais. “Desde sempre” há uma indisposição com essas tradições religiosas, segundo o teólogo, pastor batista e pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (Iser), do Rio de Janeiro, Clemir Fernandes. Começou com o catolicismo português, que resistiu à reforma protestante, e que tentou se impor no Brasil sem qualquer tipo de influência religiosa. “Ainda menos de religiões consideradas ‘estranhas’, como eram as dos africanos.”

Tanto que os portugueses católicos já impunham obrigações aos escravos assim que chegavam no Brasil. Havia um prazo de seis meses para o batismo e conversão ao cristianismo. E nas celebrações e rituais de seus antepassados, tinham de incorporar a tradição católica. “Havia nas senzalas os santos católicos, que estariam sendo cultuados nos rituais dos escravos. Dessa maneira os africanos iam tentando sobreviver à situação, misturando os elementos para não serem perseguidos. Até porque havia a instituição do Santo Ofício – a Inquisição –, que vinha ao Brasil perseguir acusados de bruxaria, magia negra”, conta Clemir.

Ao mesmo período remete a demonização da religião praticada pelos negros e, consequentemente, dos seus adeptos. O mesmo catolicismo português puro que se impunha no Brasil trazia arraigada uma indisposição em relação a tudo o que é desconhecido. Ou seja, o demônio estava em tudo aquilo que não se podia identificar ou explicar. “O outro, que não se sabia o que era, do que nem se queria aproximar, era o demônio”.

Tudo isso criou raízes tão profundas na cultura da sociedade brasileira que já no final do período escravocrata, no fim do século 19, o preconceito, o racismo e a intolerância já havia alcançado os contornos que tem hoje. Tudo relativo aos negros foi sendo configurado fortemente de tal maneira que ainda no período da abolição formal, as práticas religiosas e culturais desses africanos eram alvo inclusive de perseguição e criminalização pela polícia. A própria roda de capoeira era proibida por lei, sendo associada a esse outro desconhecido, o demônio. Havia prisões de capoeiristas e apreensão de objetos, adereços e vestimentas usados em rituais.

Para se ter uma ideia do tamanho da perseguição, o museu da Policia Civil fluminense reúne um grande acervo de artigos religiosos apreendidos desde o final do Império e começo da República das casas religiosas. Acervo este que está em disputa com o Museu Nacional, segundo Clemir.

Com a chegada da República, houve uma tentativa de liberação da prática de todas as religiões no espaço público. E ao longo do século 20 os adeptos da umbanda e do candomblé se organizaram, se estruturaram e conquistaram tolerância. Mas o preconceito forjado na colonização se sustentou fortemente.

Os protestantes chegaram ao Brasil na metade do século 19, com os luteranos, batistas, presbiterianos e metodistas. No começo do século 20 vieram seguidores de uma nova vertente, os pentecostais, como a Congregação Cristã e a Assembleia de Deus. No final dos anos 1960 o pentecostalismo começou a crescer e ganhar expressão. Surgiram novas igrejas, como a Nova Vida, que fazia curas e exorcismos públicos de demônios, e que deu origem mais tarde à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e Igreja Internacional da Graça de Deus.

Conforme Clemir, foi nesse contexto surgiu Edir Macedo, ex-umbandista, que se converteu e se casou nessa igreja. “Ali passou a pregar, já com olhar voltado para as religiões de matriz africana porque, para ele, era preciso libertar essas pessoas da religião da qual ele fez parte. Edir deixou a igreja e fundou a IURD”, conta. “É por isso que muito da gramática da Universal vem da matriz africana e com ela dialoga: ‘Campanha do pai das luzes’, culto de descarrego. Embora existam outras lideranças, ele é exemplar, dando novo significado a essa tradição evangélica neopentecostal, com demonização mais ostensiva. Isso porque as religiões de origem africana competem com a Universal.”

As agressões, conforme o pesquisador, não são isoladas. Os níveis de violência simbólica e real se ampliaram fortemente no período recente da democracia – que ele chama de paradoxo da nossa democracia, que deu espaço para todas as manifestações. Os grupos de origem africana passaram a fazer atividades na arena pública, como oferendas na praia, e exigir direitos. E ganharam aliados. Para enfrentar a Record, a Globo passou a apoiar as religiões de matriz africana, com sua estética e indumentária que nenhuma outra tem. Passou a apoiar a Caminhada contra a intolerância do Rio. Antes, Antonio Carlos Magalhães, havia percebido a força política da exposição dos símbolos da Bahia, terreiros, pais e mães de santo inclusive, se aproximando de Mãe Menininha, expoente de uma religião que tinha muitos adeptos entre artistas e na academia. Mas nesse meio tempo os evangélicos ganharam espaço na TV e concessão de TV.

“Se os afrodescendentes tivessem continuado em seus terreiros, a perseguição não teria crescido tanto”, avalia Clemir. “A igreja católica, mais sensível aos africanos, se rearrumou. Até porque o brasileiro médio, que vai a igreja mas gosta de despacho na praia no ano novo, fica desconfortável com o crescimento dos evangélicos e sua posição preconceituosa”.

Os evangélicos correspondem a 22% da população brasileira. Os adeptos de religiões de matriz africana não chegam a 1% na autodeclaração do IBGE. O que faz 1% incomodar 22% , na opinião do pesquisador, é o fato de essa ampla minoria ter ido para a arena pública, se manifestar com suas indumentárias, sua gramática, seus ritos, incomodando os mais conservadores que reúnem todo o rescaldo brasileiro de intolerância, que encontraram nos pentecostais a capacidade de vociferar contra aquele ‘demônio’. “Isso está conectado a uma sociedade que se tornou intolerante em uma escala maior. Morre mais gente por brigas no futebol do que por causa de religião, mas a sociedade se incomoda mais com algo envolvendo a intolerância religiosa”.

Liberdade religiosa
A toda essa intolerância, a resposta que vem do interior dos terreiros é a luta pacífica pelo direito, constitucional, da prática da fé ancestral com liberdade. “Acho que essa consciência tem se desenvolvido muito entre os adeptos de cultos de matriz africana e principalmente entre as lideranças religiosas. Existe um movimento dentro dos terreiros para ter maior visibilidade, lutar por seus direitos religiosos, no sentido de existirem enquanto religião. E isso entra em choque com as grandes mudanças no campo religioso brasileiro”, diz Sonia Maria Giacomini, professora do Departamento de Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.

Ou seja, a perda de hegemonia absoluta da igreja católica, o crescimento das “igrejas eletrônicas” e do alcance de seus pastores, com sua maneira proselitista cuja missão é ganhar novos adeptos. “Essa é uma marca das igrejas neopentecostais, que querem trazer para si adeptos das religiões de matriz africanas.”

Coautora do livro Presença do axé: mapeando terreiros no Rio de Janeiro, Sonia destaca que a intolerância não se limita à destruição de templos. Se manifesta também de maneira verbal, com xingamentos. Entre os termos mais usados, por exemplo, “filho do demônio” e “filho do diabo”. Ou seja, associações negativas com as divindades religiosas.

“O que é interessante é que esses adeptos entendem essa perseguição como uma missão religiosa que eles devem cumprir. Daí a gente pode entender a tenacidade, o empenho ou mesmo a forma deliberada, calculada, que essas agressões vão ser calculadas. Envolvem muitas vezes alto falantes, equipamentos eletrônicos, e também uma certa articulação entre os adeptos, que vão se articulando a realizar isso de maneira coletiva. Não se trata portanto de uma manifestação individual desses adeptos, mas de uma forma organizada de percepção”, destaca.

Sonia considera a discriminação e perseguição enfrentadas atualmente pelos cultos de origem africana são mais elaborados em comparação com os praticados pela igreja católica no passado – embora não possam ser encaradas como se uma fosse melhor que a outra.

Por causa disso, essas religiões estão tendo de aprender a conviver com essas novas formas de discriminação. “E isso tem promovido uma articulação digamos cidadã dos terreiros e das lideranças religiosas. Isso é um movimento realmente muito importante.”

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