Por que os trotes nunca vão acabar

Enquanto isso, na USP
Enquanto isso, na USP

 

Todos os anos inúmeros vídeos contendo cenas de horror são veiculados. Jovens mergulhados em tanques cheios de urina, lama, estrume ou ainda sendo obrigados a tomar litros de cachaça até cair ou a ingerir dejetos variados dentro de vasilhames suspeitos.

São alunos recém ingressos na faculdade. Essas humilhações são o que veteranos classificam de “boas vindas”. A recusa em “participar” é repreendida com violência. Na USP (maior universidade do país) casos de violência sexual não são raros e mortes já ocorreram, algumas por afogamento.

Professores, diretores e reitores dessas universidades sempre fazem de conta que não é com eles, afirmam serem contrários a prática mas nunca vão além da emissão de notas de repúdio ou suavizam dizendo aos pais que se trata de brincadeira. Mas o descalabro parece ter atingido um patamar inaceitável e uma CPI está em andamento na Assembleia Legislativa para apurar violações de direitos humanos e outras ilegalidades nas universidades de São Paulo.

Em depoimento realizado ontem (23) , uma professora da PUC de Campinas relatou conhecer casos de abuso desde 2008, não só fora do ambiente acadêmico mas dentro de sala de aula inclusive!! Se professores são lenientes (e até mesmo participantes, segundo depoimentos de algumas vítimas), já vem tarde a tal CPI mas antes agora que mais tarde. Afinal, a maioria das vítimas não denuncia com medo de represálias.

Chega a ser curioso que cursos como medicina, veterinária e agricultura, atividades tão imbuídas de um senso de altruísmo, cursadas em sua maioria por filhos de classes sociais mais favorecidas, ensejem este tipo de comportamento e proporcionem os mais violentos trotes… mas vamos deixar essa discussão para outro dia.

Não são poucos os casos de alunos que abandonaram seus cursos por sequelas psicológicas. O que era para ser uma fase de passagem, de usufruto de um objetivo tão arduamente alcançado após anos e anos estudando 18 horas por dia, se transforma em drama com consequências para toda a família.

Já defendi aqui que times de futebol sejam punidos quando suas torcidas aprontam das suas. É polêmico mas é como vejo. As faculdades igualmente devem ser responsabilizadas por essas selvagerias. Esses esquemas têm estruturas de poder baseadas em hierarquia, com participação de veteranos e até médicos formados portanto não há como a instituição se isentar de culpa ou alegar desconhecimento. As crias são internas. Os deputados têm até o dia 15 de março para entregar um relatório e as denúncias serão levadas ao Ministério Público.

E qual a saída? Vou colocar pimenta. Não se pode dizer que sejam piores, mas a ideia de substituir os trotes violentos por outros politicamente corretos com aulas de dança, gincanas, oficinas ou sei lá o que mais igualmente não me agrada. Explico: temos um costume um tanto preguiçoso e já arraigado no sistema de ensino que é cultivado desde as primeiras séries. No primeiro dia de aula o índice de absenteísmo é alto pois faz parte da cultura “no primeiro dia não acontece nada”, prorrogável muitas vezes para “na primeira semana não acontece nada”, e assim vai. Não espanta nossa colocação nos rankings mundiais de ensino.

Então, em vez de trote do mal ou do bem, alguém já pensou em utilizar esse tempo para simplesmente entrar em sala de aula e estudar? Não é para isso que se entra na faculdade?

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