Por que Pazuello e Bolsonaro são responsáveis pelo caos da covid em Manaus. Por Jesem Orellana

O ministro Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro Foto: Divulgação

Por Jesem Orellana – Epidemiologista-FIOCRUZ/Amazônia

Tentarei ser breve, com uma rápida linha do tempo e espero que ajude em tempos de CPI da Covid. Fica claro que as ações foram coordenadas pelo Ministério da Saúde e estão temporalmente encadeadas.

Em 21 de julho de 2020, Pazuello defende o uso precoce de medicamentos INEFICAZES contra a covid-19.

Em 24 de agosto de 2020, Pazuello afirma “Nosso tratamento precisa ser precoce e imediato”.

Em 03 de dezembro de 2020, Pazuello afirma “o tratamento precoce fez diferença no enfrentamento à Covid-19 no Brasil – encontro contou com representantes da Saúde do Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia”.

Em ainda em dezembro de 2020, o Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária, além dos 3 milhões de comprimidos já entregues em 2020 pela FIOCRUZ e em cenário de franca redução nos índices de malária no Brasil, solicita a bizarra produção extra de mais 25% no número de comprimidos de Cloroquina à FIOCRUZ, supostamente para tratar malária.

Nos últimos anos, os casos de malária têm caído no Brasil. Em 2020, por exemplo, a queda foi de 10%, em comparação com 2019. Quedas expressivas foram observados nos principais estados malarígenos do Brasil como Amazonas, Pará e Amapá, por exemplo.

Ora, se os casos de malária estão caindo sequencialmente, como pedir à FIOCRUZ para produzir a mesma quantidade de comprimidos em 2020? Por que o laboratório químico farmacêutico do Exército produziu milhões de comprimidos com dispensa de licitação? Por que a FIOCRUZ produziu 25% a mais de comprimidos de Cloroquina?

O Governo Federal precisa explicar para quem foram destinados esses comprimidos, inclusive os recebidos de outros fornecedores ou estruturas do governo que deram vazão a essas drogas ineficazes contra a covid-19 como exército, aeronáutica, outros ministérios, estatais e conselhos da área econômica.

No dia 30 de dezembro de 2020, mesmo sem ainda assumir o mandato de Prefeito de Manaus, David Almeida, prometeu enfrentar a epidemia com o kit Covid.

Em janeiro de 2021, o Ministério da Saúde enviou ao Amazonas, de forma surpreendente, 224.140 comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina, praticamente a mesma quantidade do que em todo o ano de 2020.

Desse total, 66.320 comprimidos foram apressadamente distribuídos em Manaus nos primeiros 14 dias de janeiro de 2021. Qual o motivo? No dia 07-Jan-2021, estranhamente, foram distribuídos 47.960 comprimidos de Cloroquina (200 mg) somente em Manaus.

No dia 11-Jan-2021, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde, Mayra Isabel Correia Pinheiro, enviou um ofício à Secretaria Municipal de Saúde de Manaus, solicitando autorização para visitar as unidades básicas de saúde de Manaus destinadas ao atendimento de pacientes com suspeita de Covid-19, com o intuito de difundir e adotar o tratamento precoce, alegando suposta comprovação científica dessas drogas, algo jamais confirmado e que contraia o próprio artigo que ela publicou na revista de Direito Sanitário (se arvorou a escrever sobre bioética em relação ao uso de medicamentos na pandemia).

No dia 12-Jan-2021, o Pazuello circula por Manaus e reafirma “o medicamento estará disponível na rede de saúde” e o Presidente Bolsonaro diz “o governo federal precisou intervir em Manaus (AM), porque não faziam tratamento precoce na cidade”.

Também em 12-Jan-2021, um dia depois da Shádia Fraxe, Secretária Municipal de Saúde de Manaus ter sido formalmente envolvida na trama, a mesma afirma “Reforçamos a importância do tratamento precoce para evitar que o quadro clínico se agrave.

Não é necessário confirmar o diagnóstico por testes para iniciar o tratamento. Se, clinicamente, o paciente apresentar sintomas que sugiram Covid-19, já recebe tratamento e seu quadro de saúde será monitorado por pessoal capacitado para isso”.

No dia 14-Jan-2021, estranhamente, foram distribuídos mais 18.000 comprimidos de Cloroquina (200 mg) em Manaus. Em 19-Jan-2021, o Pazuello começa a negar que recomendou tratamento precoce, mesmo sabendo que governo Bolsonaro concentrou o envio de cloroquina a aliados de diferentes regiões do país.

Em 19 de maio de 2021, Pazuello enfrenta a CPI da Covid.