Por que Pedro Parente caiu? Por Gilberto Maringoni

Publicado originalmente no perfil de Facebook do autor

POR GILBERTO MARINGONI

Pedro Parente. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Houve uma combinação de interesses que tornou insustentável a permanência de Pedro Parente à testa da Petrobrás.

O PRIMEIRO e mais evidente deles foi a abrangência de um maciço movimento de massas policlassista que paralisou o país por dez dias. Os efeitos da mobilização dos caminhoneiros foram os de uma verdadeira greve geral nacional.

O SEGUNDO se deve à espantosa receptividade e acolhida popular do movimento. É algo extremamente avançado: mesmo prejudicada em sua mobilidade e com sérios problemas de abastecimento, a maioria da população brasileira – vide sondagem do DataFolha – apoiou os bloqueios nas estradas. É como se as pessoas dissessem: “a situação geral está tão ruim que alguma coisa precisa ser feita, mesmo que isso me prejudique momentaneamente”. Greve vitoriosa é greve com sustentação social para além da categoria.

EM TERCEIRO, houve um descolamento de um setor da burguesia do bloco dominante golpista. Os donos do agronegócio já vinham há meses se colocando contra a política de comercialização da Petrobrás. Os constantes aumentos no preço do diesel representam um irrefreável aumento de custos de produção que – apesar da altíssima produtividade do setor – lhes tira competitividade internacional. No interior do agronegócio, o ramo de abate – em especial o de frango, como mostrou o Jornal Nacional – teve prejuízos expressivos ao longo da semana de paralisação.

Formou-se assim, tacitamente, uma frente que vai da base dos caminhoneiros – funcionários, terceirizados e autônomos – ao patronato da indústria agrícola de exportação, passando pelo empresariado de transportes.

Ironicamente, pode-se dizer que a queda de Parente foi uma vitória da conciliação de classes, pois frente é o nome científico desse fenômeno.

DOIS PONTOS ADICIONAIS:

UM: Os céticos afirmam que de nada adianta tirar Parente se a Petrobrás seguir adiante com sua diretriz de exportar óleo cru e importar refinados. Sim, há essa possibilidade. Arrisco dizer que essa não é a mais provável, numa quadra de virtual dissolução da gestão Temer.

O embate entre agronegócio e governo não é brincadeira e os caminhoneiros podem retomar a mobilização. De mais a mais, o paliativo da isenção tributária para o diesel tem limites orçamentários e políticos numa situação de valorização do dólar e do barril do petróleo no mercado mundial. É possível que se chegue a uma saída mista, como chegou a aventar Moreira Franco há alguns dias. De toda forma, a política pura e dura de Pedro Parente parece ter saído do mapa.

DOIS: A semana que passou foi pródiga para os arautos do apocalipse, que viram golpe até embaixo da cama. A visão é distorcida: o golpe já aconteceu. O que há é uma disputa de rumos no interior da coalizão que o dirige.

O fato de desequilibrados e desinformados entre a massa de caminhoneiros e de populares clamarem por intervenção militar é ruim. Mas nada é mais emblemático da confusão mental dessa gente do que a cena vista em uma manifestação no interior de Minas. Após brados pela volta dos fardados, a turba em uníssono cantou “Pra não dizer que não falei das flores”, quase um hino contra a ditadura, composto por Geraldo Vandré, em 1967.

A conjuntura mudou. Para melhor.

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