
Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, endossou publicamente a ideia de transformar o Canadá no “51º Estado”. Embora a anexação seja considerada improvável, a retórica voltou a tensionar o cenário político canadense e trouxe à tona um debate interno antigo, agora em escala nacional: o avanço do separatismo na província de Alberta.
Rica em petróleo, Alberta concentra um movimento de extrema-direita organizado que defende a independência e a criação de um novo país soberano. A pauta ganhou força nas últimas semanas e levou o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, a reagir publicamente após contatos do movimento com autoridades estadunidenses.
Uma das principais vozes do separatismo é Dennis Modry, dirigente do Alberta Prosperity Project. Ele afirmou que a incorporação de Alberta ao Canadá foi uma imposição histórica.
“As pessoas que viviam nas regiões de Alberta e Saskatchewan em 1º de setembro de 1905 não votaram para se unir ao Canadá. Elas foram anexadas”, disse em entrevista ao jornal La Nación. Segundo Modry, a Confederação Canadense representou um processo de absorção econômica desigual.
Ele citou uma declaração de 1904 de Sir Clifford Sifton para sustentar o argumento de exploração. “Queremos que o grande comércio das pradarias do Oeste sirva para enriquecer o nosso povo no Leste, para levantar nossas fábricas e locais de trabalho”, disse o então ministro do Interior, frase que Modry afirmou explicar “120 anos de saque” das riquezas da província.
Para ele, cerca de um trilhão de dólares teria sido transferido a Ottawa sem retorno. “Não nos devolveram um centavo disso”, afirmou, classificando o sistema como “confiscatório”.

O dirigente explicou que o conflito vai além da economia e envolve identidade política. “A cultura em Alberta acredita que, se você cuidar dos direitos individuais, cuidará dos direitos da sociedade”, disse, ao criticar o que chamou de visão coletivista do governo federal. Ele também afirmou que “no Canadá não temos o direito de possuir armas de fogo”, relacionando o tema à autonomia provincial.
O movimento separatista passou da retórica à ação institucional. O grupo Stay Free Alberta tenta reunir 177.732 assinaturas até 2 de maio para forçar um referendo. A iniciativa ganhou fôlego após mudanças na Lei de Iniciativa Cidadã promovidas pela premiê Danielle Smith. Modry afirmou que “seria um suicídio político para o governo provincial não realizar o referendo”.
A retórica de Trump obrigou o movimento a se distanciar da ideia de anexação. “Virar parte dos Estados Unidos nem sequer está sobre a mesa. Por que pularíamos da Agência de Receita do Canadá para o Serviço de Impostos Internos dos Estados Unidos?”, questionou Modry. Ele disse acreditar que uma Alberta independente seria mais competitiva como país soberano.
Apesar disso, dirigentes do grupo mantiveram reuniões com funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, segundo o Financial Times. O episódio levou Carney a pedir que Washington “respeite a soberania canadense”.
Na outra ponta, o movimento Forever Canadian, liderado por Thomas Lukaszuk, reuniu mais de 404 mil assinaturas contra a secessão. Lukaszuk afirmou que Alberta não teria viabilidade econômica fora da federação e alertou para entraves legais com povos originários. “Eles transcendem as fronteiras provinciais”, explicou. Para ele, infraestrutura, portos e ferrovias continuariam sob controle federal. “Tudo isso é federal”, disse.
Pesquisas citadas pela emissora CBC indicam que cerca de 30% dos moradores apoiariam a independência em tese, mas o apoio cai pela metade quando são apresentados impactos econômicos. O economista Trevor Tombe afirmou que “uma Alberta separada seria uma Alberta mais pobre”, classificando as promessas fiscais do movimento como inviáveis.