Por trás da desistência de Simone Biles, um caso de abuso sexual na ginástica artística dos EUA

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

Por André Rossi

Biles foi uma das inúmeras vítimas de Larry Nassar – Foto: Twitter/TeamUSA

A notícia da retirada de Simone Biles das disputas da ginástica nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 chacoalhou o mundo do esporte. Ela desistiu de competir na maioria das provas em que estava classificada, inclusive na badalada final do individual geral onde era uma das medalhas de ouro mais cantadas de toda a Olimpíada. O motivo foi a saúde mental. Disse que sua mente e corpo estavam fora de sintonia. “Eu não tenho ideia de como pousei em pé naquele salto, porque se você olhar as fotos e meus olhos, consegue ver como estou confusa em relação a onde estou no ar. Felizmente eu aterrissei em segurança”, contou, referindo-se a uma apresentação na final por equipes.

O que Biles descreve é chamado de ‘twisties’, algo como uma confusão mental que tira a exata, e fundamental, noção que a ginasta tem de ter para conseguir fazer tantas acrobacias, virando e revirando o corpo e a cabeça, conseguindo encerrar o movimento em pé, em segurança. “Minha mente e corpo simplesmente estão fora de sincronia. Não acho que vocês entendem quão perigoso isso é nas superfícies de competições duras. Eu não preciso explicar porque coloquei a saúde em primeiro lugar”, acrescentou a atleta dos Estados Unidos.

Vítima de abuso sexual

Além da conhecida pressão que atletas como ela tem de lidar diariamente, por anos a fio, Simone Biles carrega um agravante para a saúde mental. Ela foi uma das vítimas de Larry Nassar, um ex-médico da seleção de ginástica artística dos Estados Unidos, condenado por uma série abusos sexuais contra atletas, dentre elas, Simone Biles. A única, por sinal, que ainda compete. Outra das vítimas, Chelsea Markham, violentada aos 10 anos, cometeu suicídio aos 26.

A história que envolve Larry Nassar, documentada no filme Atleta A, só veio à tona após 20 anos de abusos, exposta pelo jornal The Indianapolis Star, em 2016, durante os Jogos do Rio de Janeiro. Nas duas décadas anteriores, foi escondida por técnicos, dirigentes e também pelo Comitê Olímpico dos Estados Unidos, muitas vezes sob o argumento de que o agressor era católico e pai de duas meninas.

Joanna Maranhão, quinta colocada dos 400 m medley da natação em Atenas-2004, foi vítima de abuso sexual semelhante ao que Biles passou. Ela falou sobre o caso em entrevista ao SportTV. “Eu passei por isso, fui quinta do mundo e ali, aos 17 anos, sabia que no momento que eu parasse para olhar para a minha história, nunca mais seria a atleta que foi quinta do mundo. As experiências de ter a integridade violada enquanto atleta, por melhor que você seja, num momento essas memórias te engolem”. Quatro anos mais tarde em Pequim-2008, aos 21, idade onde os atletas costumam estar perto do auge da forma, registrou apenas o 22º lugar na mesma prova. “Ela (Biles) está humanizando o atleta de alto rendimento”.

Saúde mental

A estrutura mental de Biles foi abalada de duas grandes formas, pois, além da agressão sexual, convive com a pressão diária de ser um atleta de alto desempenho, que tem de entregar resultados. Nesse segundo ponto, converge com praticamente todos os colegas de esporte. E o drama mental não ocorre apenas com os ‘superatletas’.

Ygor Coelho, do badminton, por exemplo, que em quadras japonesas registrou a primeira vitória olímpica da história do país na modalidade, contou o tormento que passou para conseguir chegar aos Jogos Olímpicos. “Ninguém sabe como foi esse ano de pandemia para mim, onde não sabíamos se teríamos os Jogos ou não. Mais um ano! Aí eu descobri que tinha que fazer duas cirurgias, minha confiança foi lá embaixo, no fundo do poço, e eu tive uma crise de ansiedade. Ganhei peso, dez quilos. Em janeiro desse ano perdi o contrato com o clube e não sabia se conseguiria voltar”, contou, para o site Olimpíada Todo Dia.

A judoca Mayra Aguiar, medalhista de bronze nos Jogos, também caiu em prantos após confirmar a medalha, a terceira dela em três Jogos seguidos. Revelou o sofrimento mental que teve no ciclo olímpico, marcado pela pandemia da covid-19 e, no caso dela por mais uma cirurgia, a sétima, que a deixou fora de combate por quase um ano às vésperas dos Jogos.

“A cirurgia veio como aquele ‘brinde extra’ ruim. Foi bem difícil. Parece que tá tudo muito ruim, não tem como piorar e piora. Foi uma briga psicológica. Desde que eu me machuquei até o dia de hoje. Foi igual uma onda. Felicidade de ver que está melhorando, aí cai de novo”, disse. “Chegar aqui (lutar nos Jogos) é a parte fácil”, falou, para o mesmo site esportivo. Dois dias depois, apresentou-se desolada com a má apresentação da seleção no torneio por equipes. “Odeio perder, não assisto competição antes de lutar porque eu sinto muito naquele momento, vivo muito.”

Altobeli Silva, dos 3.000 m com obstáculos, não levou nenhum feito dos Jogos, pelo contrário. Acabou eliminado antes da final, gerando uma frustração exposta em entrevista para a Rede Globo logo após a eliminatória pela qual não passou. “Estou me sentindo muito mal. Chateado, porque eu sei o quanto eu treinei, o quanto batalhei, o quanto abri mão. É uma frustração muito grande”, disse. “Minha vontade é de chorar, porque eu treinei pra caramba. Treinei muito pra estar aqui”, acrescentou, antes de colocar, inclusive, em dúvida todo o esforço que faz dia a dia. “Me dediquei pra caramba! É uma decepção muito grande. A ponto de você analisar, será que isso vale a pena?”

Além da medalha

Em meio às discussões que o caso Biles gerou, os Jogos seguiram e a participação do Brasil ganhou corpo. Já eram dez medalhas até o início de domingo (1º) brasileiro, algumas com tempero extra. O bronze de Mayra coloca a judoca como a primeira mulher de modalidade individual a subir três vezes ao pódio e a única, dentre todas as modalidades, a fazer isso de forma consecutiva, Londres-2012, Rio-2016 e agora na Tóquio-2020. A outra atleta que também tem três medalhas é a ex-levantadora Fofão, do vôlei, mas em Atlanta-1996, Sydney-2000 e Pequim-2008. “Pulou” Atenas-2004.

Na ginástica artística, Rebeca Andrade conquistou uma prata no individual geral, a primeira medalha na história do país na modalidade, e um ouro no cavalo, tornando-se a primeira brasileira a ganhar duas medalhas em uma única edição das Olimpíadas. No surfe, Italo Ferreira se tornou o primeiro campeão olímpico da história, em ambos os gêneros, e no skate street, a pequena grande Rayssa Leal foi prata e se tornou a mais nova brasileira a ser condecorada em todos os tempos. O bronze da dupla Laura Pigossi e Luisa Stefani é a primeira do tênis brasileiro nos Jogos.

Para os livros

Mas não é só de medalhas que vivem os feitos esportivos. Nos discursos pós competição, de quem ganha e de quem perde, é quase unânime a fala dos atletas de que o mais importante é colocar em prática no dia da tão esperada prova aquilo que tanto treinaram. A maior parte deles deixa os Jogos sem sequer passar perto do pódio, mas levam consigo feitos também digno de registro nos livros de história.

Além de Ygor Coelho e a primeira vitória de um brasileiro no badminton, Ana Sátila foi a primeira brasileira a chegar em uma final da canoagem slalom. Renado Rezende conseguiu alcançar uma inédita semifinal do ciclismo BMX e Henrique Avancini, no ciclismo mountain bike, marcou um 13º lugar que nunca nenhum brasileiro havia conseguido. Lucas Verthein, do remo, igualou o melhor resultado de single-skiff chegando à semifinal e repetindo feito de Paulo Cesar Dvorakowski em Moscou 1980. Contando todas as modalidades do remo, o país não colocava um atleta entre os 12 melhores desde Barcelona-1992.

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