Porchat, Meta e Banco Master: quando as big techs decidem quem pode falar

Atualizado em 23 de setembro de 2026 às 16:09
Fábio Porchat em vídeo censurado pelo Instagram. Foto: Reprodução

Costuma-se imaginar o futuro da relação de exploração das big techs às nossas individualidades como a revolução das máquinas, quando os robôs tomarão nossos empregos e substituirão de artistas a operários, mas a coisa toda é menos glamourosa que isso, embora não menos dramática.

A censura parece ser o primeiro e mais claro sintoma.

Que o diga Fabio Porchat, cujo projeto Revelando teve o perfil derrubado pela Meta depois de viralizar com um vídeo completo e didático sobre a família Vorcaro e a família Valadão, mexendo com gente muito poderosa: de banqueiro preso a pastor evangélico. O perfil foi posteriormente restaurado pela plataforma, que não informou qual regra teria sido violada.

Porchat não apenas fez um vídeo de denúncia: ele trocou em miúdos as relações envolvendo Daniel Vorcaro e “a turma”, como se autodenominavam no WhatsApp, peitando poderosos como se vivêssemos em uma sociedade livre.

Não vivemos.

Talvez nunca antes tenhamos encarado de frente e com tanta clareza o poder das big techs e, sobretudo, de que lado elas estão.

A revolução das máquinas não é sobre robôs roubarem nossos empregos: eles nos roubarão de nós.

Você provavelmente já ouviu falar do capitalismo de vigilância, conceito de uma mulher hiperpotente chamada Shoshana Zuboff, que aponta para a relação de exploração das big techs com seus usuários, e principalmente com os dados de seus usuários, que viram lucro.

Talvez Shoshana não pudesse prever o pior: não apenas nossos dados estão sendo deliberadamente mercantilizados para uma manipulação algorítmica que influencia cada uma de nossas escolhas e decisões (inclusive políticas), o que já seria muito: a Meta e outras big techs têm poder direto sobre nosso discurso, censurando-o em um clique.

A pergunta é: que tipo de cambalacho justifica uma big tech censurar um humorista que criticou um esquema envolvendo um banco e uma igreja?

(Sim, é muita informação, o roteirista enlouqueceu).

Não se sabe ainda. O fato é que as big techs, que, sem medo de exagerar, já comandam o mundo, todas elas têm um lado, uma ideologia, que aparentemente favorece banqueiros criminosos e censura quem tenta criticá-los.

Não é surpresa e também não é novidade, já que o próprio Mark Zuckerberg tem se aproximado cada vez mais da direita americana e de Donald Trump, inclusive doando US$ 1 milhão para a posse e cultivando uma relação pessoal com o presidente dos EUA.

Eu diria que tá explicado, é claro, mas o jurídico me orientou a não falar nada, então tirem vossas conclusões.

Já em 2018, no Brasil pós-golpe, havia indícios do posicionamento político de Zuckerberg e de como o Facebook, sob seu comando, alterava a forma de distribuição de conteúdo na plataforma, reduzindo o alcance de páginas e priorizando outros tipos de publicação.

Embora isso cheire muito mal, não dá pra saber a relação estreita entre a Meta e o Master, mas dá pra saber que as big techs não são muito afeitas a conteúdos progressistas, porque sempre foi assim.

A revolução das máquinas já começou há muito tempo: as grandes plataformas de mídia não apenas nos censuram, elas moldam nossa existência em uma manipulação pré-consciente da qual talvez não haja escapatória.

O escândalo entre a Meta, Porchat e o Banco Master é só o começo: a cada ano ficará provado uma vez mais que as big techs só ocupam um lado: o lado do poder.

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora e colunista baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.