Por que o mexicano Chaves é o melhor programa da história da TV brasileira

Tenho lembrado de uma conversa que tive com uma das pessoas mais brilhantes com que convivi. Pedro De La Fuente, brasileiro-mexicano-alemão, hoje um dos grandes cineastas de publicidade do Reino Unido.

Discutíamos o profissionalismo da indústria da música no Brasil. Isso era início dos anos 2000. Porquê a música era profissional e o cinema, amador? Hoje o panorama é até diferente, mas a conversa, naquela época, fazia todo o sentido.

Falávamos da média dos mercados, obviamente excetuando-se alguns bons profissionais.

Quantos filmes, então, tínhamos em padrão mundial? Dois? Três? Que sejam dez. Na música era muito diferente. Milhares, ou dezenas de milhares de produtos tinham um padrão de primeira linha.

Pedro acreditava que isso se devia à chegada das grandes gravadoras ao país. Naquela época, nós tínhamos 5 multi-nacionais e pelo menos 20 gravadoras brasileiras trabalhando em alto nível. As multi-nacionais, segundo a lógica do meu amigo, formavam profissionais e puxavam o mercado com bons produtos, fazendo com que qualquer um que quisesse competir tivesse que fazer direito.

Isso jamais aconteceu com os estúdios de cinema. A Warner Brothers trouxe sua gravadora ao Brasil, mas não seu estúdio.

(Aqui vale a pena um adendo: Pedro De La Fuente é esquerdista e anti-americano, ao contrário do que muita gente pode estar pensando).

Porquê a Warner não trouxe seu estúdio de cinema? Tenho minhas ideais, mas não vou perder o nosso tempo com isso. Isso tudo foi só uma introdução ao que eu realmente queria falar: porquê a nossa TV é tão ruim?

Para mim, a mesma lógica pode se aplicar ao mercado da TV. Imagine se a BBC, a NBC ou a RAI tivessem aportado no Brasil, em canal aberto, mais ou menos na mesma época em que a EMI, a Warner, a Sony vieram, ali entre os anos 50 e 60.

Onde estaria a Globo hoje?

Será que eles ainda teriam as novelas como carro-chefe? Será que teriam manipulado o debate do Collor? Será que… será que ela existiria?

É interessante pensar que aquele que é, provavelmente, o melhor programa já veiculado na nossa TV, é um programa mexicano – o Chaves.

Desde que a TV Tupi começou a operar lá em Perdizes, onde hoje é a MTV, não fomos capazes de produzir um mísero programa de TV que se tornasse referência da nossa cultura. Nem vivendo ela de perto. O Chaves é mais honesto, delicado e verdadeiro, que qualquer coisa que a Globo ou mesmo a Cultura já tenha produzido sobre a pobreza e a desigualdade, essa condição com a qual nós convivemos há tanto tempo.

É inegavelmente um ícone pop. Na minha visão, o maior do Brasil. A quantidade de referências ao Seu Madruga é prova disso. De adesivos em cadernos a camisetas.

Já viu alguém com o adesivo do Salve Jorge?

Segundo a Wikipédia, em 2013, nós temos 5 canais abertos que pegam nacionalmente. Há 50 anos, tínhamos um.

O México tem, hoje, 11. Os EUA, 16. A França, 57.

Quem sabe se tivéssemos 57 canais de TV aberta no Brasil, nossos seriados seriam mais inteligentes, nosso jornalismo mais honesto, nosso povo mais educado, nossos políticos mais justos.