Porta-voz de Milei admite que não há provas de campanha coordenada contra a Argentina

Atualizado em 11 de agosto de 2026 às 21:23
Javir Milei

O presidente da Argentina, Javier Milei, mantém a acusação de que os governos do Brasil, México e Espanha, além do Partido Democrata dos Estados Unidos, teriam financiado uma “campanha anti-Argentina” nas redes sociais durante a Copa do Mundo de 2026.

No entanto, integrantes da própria Casa Rosada admitem não possuir evidências que sustentem a tese estapafúrdia, que desencadeou uma grave crise diplomática na região.

A controvérsia teve início no final de julho, durante um evento político em São Paulo. Na ocasião, Milei afirmou que os ataques digitais vinham do Brasil e eram promovidos pela “esquerda progressista”. Nos dias seguintes, o mandatário subiu o tom: alegou que 25% dos recursos da suposta ofensiva saíram do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, estendeu as acusações a outros países e chamou o presidente brasileiro de “corrupto” e “ladrão”.

O chanceler Pablo Quirno tentou ajustar os dados apresentados por Milei, afirmando que o volume de mensagens vindas do Brasil era de “22%, e não 25%”. Contudo, o próprio sujeito reconheceu a ausência de elementos probatórios: “Eu não tenho provas para incriminar ninguém”, declarou.

Nesta terça-feira, o porta-voz da presidência, Adrián Ravier, voltou a ser questionado por jornalistas sobre os relatórios que fundamentariam as acusações. Ravier limitou-se a responder que as informações vinham de análises de redes sociais que ainda precisavam ser avaliadas e prometeu apresentar as fontes posteriormente.

Até o momento, a única base documental sinalizada pela gestão argentina é um relatório da consultoria Monitor Digital, compartilhado pelo próprio Milei. O estudo indica apenas que o Brasil liderou o volume de publicações sobre a Argentina durante a Copa (22%), seguido por México (15%), EUA (13%) e Espanha (11%).

A consultoria responsável pelo levantamento, no entanto, esclarece que a liderança brasileira decorre do tamanho de sua população conectada — cerca de 150 milhões de usuários — e da histórica rivalidade futebolística entre os dois países. Em nenhum trecho o documento aponta para a existência de campanhas orquestradas, financiamento estatal ou interferência política.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.