Precisamos falar sobre o Kevin

O Corinthians deve ser responsabilizado pela tragédia com o garoto em San José.

Kevin Espada
Kevin Espada

 

Em “Precisamos Falar sobre o Kevin”, romance da americana Lionel Shriver levado para o cinema pela diretora Lynne Ramsay (aconselho para quem tem estômago forte), acompanhamos a emissão de sinais enviados pelo problemático garoto Kevin, culminando em brutal violência. O desfecho é trágico. O Kevin da ficção tornou-se um assassino possivelmente por não ter sido brecado a tempo. Muitos podem terminar o livro ou o filme concluindo negligência dos pais.

Na última quarta-feira na Bolívia, Kevin Espada não enviou sinais. Recebeu um sinalizador no globo ocular que lhe atravessou o crânio, tão certeiramente como as flechas atiradas pelo xará fictício. O Kevin da vida real não foi o matador mas a vítima. E a negligência aqui teve vários pais. Nada será feito para brecar isso?

Quem vai pagar pela morte do menino boliviano Kevin? Há poucas semanas fiz o mesmo questionamento de hoje após o incêndio na boate em Santa Maria. E novamente, uma sequência de deslizes resultam numa fatalidade.

Desde o término do jogo, fatalidade tem sido a palavra recorrente nas entrevistas com o técnico, com os jogadores, com os representantes jurídicos. Contudo, o termo está sendo usado num sentido diverso do esperado. Referem-se ao ocorrido como uma fatalidade no sentido de sorte inevitável, destino. Calma lá! Houve uma morte. Foi uma fatalidade para o garoto Kevin Espada no sentido de fatal, letal, mortal. E totalmente evitável assim como era o incêndio na cidade gaúcha.

Quem irá pagar?

O clube brasileiro foi o primeiro a ser punido e penso que não pode ser excluído. Não pode, porém, ser o único. Os donos da boate, ou do estádio, permitiram a entrada de fogos. Também são responsáveis. Assim como a polícia boliviana que, se revistou alguém, deve ter se restringido a lhamas e vicunhas. Corresponde ao descaso do corpo de bombeiros. O músico ou o torcedor que acenderam e botaram fogo no tridente do diabo não podem alegar ignorância ou utilizarem-se de argumentos do gênero “deixaram-me entrar com isso” ou “mas todo mundo fez igual”. Aliás, no dia seguinte ao jogo entre San José X Corinthians uma outra partida da Libertadores teve imensa participação pirotécnica de torcedores (entre Deportivo Lara X Newell’s Old Boys). Em razão disso, o argumento “então por que só eu serei punido?” certamente será utilizado pelo departamento jurídico do clube alvinegro em sua defesa.

O clube está certo em querer se defender e possui todo o direito mas… Vamos ao por que acredito que o time brasileiro também deva ser responsabilizado.

O clube tem responsabilidade? Não. Deve ser responsabilizado? Sim.

Explico.

Ali tinha um bando de loucos. Literalmente. Bando como quadrilha de malfeitores, como bando de bandidos e loucos por encararem um evento esportivo como uma ação de guerra. Eram corintianos como poderiam ser sãopaulinos, riverplatenses ou juventinos. Ou seja, a “culpa” não é do Corinthians.

Entretanto, penalizar um clube como o Corinthians, atual campeão da Libertadores e Mundial, equivale a penalizar sua torcida de modo didático para ela e para todas as demais. Isso contribuiria para que os próprios torcedores, numa futura oportunidade, barrassem voluntariamente algum cretino criminoso que estivesse portando um rojão ou sei lá o que mais. Prevejo que uma retaliação desse tipo possa trazer benefícios para que em breve possamos ter estádios sem aqueles alambrados grotescos em torno do campo que são, além de tudo, um perigo em situações de tumulto e que já não existem na Europa há anos. Todos temos na memória diversas imagens de torcedores esmagados contra esses obstáculos.

Como corintiano, com dor no coração, defendo a punição imposta pela Conmebol e exalto a lucidez e objetividade do lateral Fabio Santos que, em entrevista ao jornal Agora, afirmou concordar inclusive com a eliminação do time caso isso evitasse mais mortes futuras. Nosso lateral é um homem de visão e percebeu os sinais emitidos por Kevin.

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