Precisamos lutar por um mundo em que o ser humano seja a razão de tudo, não o mercado. Por Afrânio Silva Jardim

Atualizado em 20 de maio de 2019 às 7:10

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POR AFRÂNIO SILVA JARDIM

Preliminarmente, uma explicação necessária. A análise que procedemos abaixo não significa que estejamos defendendo a violência política como forma de rupturas e revoluções sociais, mormente no momento atual.

Julgo serem valiosas novas tentativas pacíficas em prol de um verdadeiro socialismo democrático. Nada obstante, para que esta empreitada tenha sucesso, é preciso menos ingenuidade e menos amadorismos.

Por outro lado, para que haja uma transformação social, se faz necessário que a maioria da população seja favorável à implantação deste socialismo. Para isso, é indispensável informação, conhecimento, consciência crítica e política do povo trabalhador. O novo modelo de sociedade não deve ser imposto, mas desejado pela maioria das pessoas.

Vale dizer, o povo precisa ter consciência do processo de exploração a que está submetido e desejar efetivamente a busca por uma sociedade mais justa. A classe trabalhadora precisa ter consciência de classe.

Assim, o que dissemos abaixo deve ser entendido como uma crítica à simples “busca do poder pelo poder” pelos movimentos de esquerda, que busquem tão somente administrar e melhorar estas estruturas capitalistas injustas. Isto tem desmoralizado a maioria dos governos de esquerda em nível mundial.

Julgo que a preocupação maior deve ser implementar massivamente um trabalho político de conscientização da população trabalhadora e não descaracterizar a luta social com alianças políticas espúrias. Para isso, é imperiosa a democratização da mídia e o desenvolvimento de uma pedagogia crítica nas escolas.

Simplesmente chegar ao poder “amarrado” pelas forças do sistema capitalista acaba por desacreditar os governos ditos de esquerda, travando os necessários avanços sociais e desorganizando as lutas e os movimentos sociais.

Feitos esses esclarecimentos, vamos à nossa análise abaixo, um pouco contaminada por um certo purismo teórico, conforme somos obrigados a reconhecer.

Minha formação acadêmica sempre foi voltada para o conhecimento jurídico. Vale dizer, não sou um especialista na “ciência” política. Entretanto, tendo a idade que tenho, considerando a leitura diversificada que venho empreendendo de longa data e, principalmente, levando em linha de conta o meu “envolvimento” antigo com o chamado “pensamento de esquerda”, ouso fazer o comentário abaixo, não restrito à realidade brasileira.

Julgo, ainda, que ele só é pertinente para a maioria dos países do chamado “mundo ocidental”.

O crescimento da “direita”, em quase toda a Europa e as Américas, muito se deve aos erros dos governos ligados à “esquerda”, embora muitos não tenham chegado a implementar uma economia verdadeiramente socialista. Vale a pena ressaltar que vários foram os fatores que favoreceram essa “onda conservadora”. Entretanto, aqui nos interessa ressaltar apenas um deles.

Vale a pena repetir: foram vários os erros da esquerda ao logo destas últimas décadas, mas aqui nos interessa ressaltar apenas um deles.

Entendo que um dos grandes erros da esquerda, em várias partes do planeta, foi acreditar na possibilidade de um “acordo sadio” com a elite econômica, fazendo concessões e alianças com a burguesia que, por definição, é gananciosa, retrógrada, preconceituosa e conservadora. Vale dizer, a esquerda acabou por negar o que lhe é essencial: a luta de classes (ainda que se entenda apenas como conflito de interesses entre as camadas da sociedade capitalista).

Certo que Karl Marx chegou a sugerir, de forma tópica, parcial e temporária, algumas alianças com a nova burguesia que se insurgia contra o absolutismo dos monarcas e contra a estrutura feudal que já agonizava, na época. Entretanto, segundo os melhores historiadores dos movimentos sociais, o empresariado jamais deixou de atender aos seus interesses de sua classe insurgente. Prestes e o antigo PCB também chegaram a crer neste tipo de aliança …

Desta forma, acreditando em conciliações espúrias, a esquerda deixou de ser “marxista-leninista” e passou a agir para “melhorar o capitalismo”.

Forçoso é reconhecer que, em muitos casos, a esquerda passou a governar como faria qualquer partido da burguesia tradicional, apenas procurando melhor distribuir a renda social e privilegiar as classes mais necessitadas da população. Lógico que não sabemos se a correlação de forças e as demais condições objetivas permitiriam que os governos de esquerdas pudessem fazer muito diferente …

Sob certo aspecto, foi uma melhoria para os mais pobres, mas sob outro aspecto, foi um atraso para o desejável avanço das lutas sociais. Melhorar o capitalismo – ou melhor, torná-lo menos ruim – é prejudicar o caminhar em prol do verdadeiro socialismo.

Pode ter sido oportunismo. Pode ter sido ingenuidade. Pode até ser que os governos de esquerda não tivessem condições políticas para fazer diferente, como salientamos acima. Não importa, talvez fosse melhor que tais governos de esquerda fossem tirados autoritariamente do poder do que restassem desmoralizados ou desprestigiados.

Em outras palavras, não adianta chegar ao poder com alianças que desfiguram e descaracterizam os movimentos de esquerda.

Nesta perspectiva de desmoralização da esquerda mundial, talvez fosse até melhor o chamado “quanto pior melhor”. Ao menos cairia a máscara dos governos fascistas e estaria potencializada a “luta de classes”, condição necessária a uma real transformação social, condição necessária, mas não única, para a criação de um novo modelo de sociedade, de uma sociedade mais justa, fraterna e democrática.

Em suma, os governos ditos de esquerda acabaram por desmoralizar o correto pensamento de Marx, Engels, Lenin e tantos outros que o aperfeiçoaram e completaram. Hoje, ser de esquerda passou a ser sinônimo de incompetência, autoritarismo e corrupção.

A esquerda não poderia ter sido igual aos outros partidos políticos tradicionais, até porque era tudo o que desejava essa mídia empresarial e comprometida com o grande capital.

Agora, o que nos resta? Acho que, a curto prazo, nos resta muito pouco. Talvez um pouco de “romantismo” e saudosismo.

Entretanto, como tudo evolui dialeticamente, através das forças contrárias, as gerações futuras podem vir a ter gratas surpresas e manter acesa a indispensável utopia de um mundo melhor. Certamente, isto vai exigir conhecimento, estudo, inconformismo, rebeldia e muita luta social. Para isso, as novas gerações precisam conhecer a história das lutas pela emancipação das classe oprimidas.

Por causa destas espúrias alianças das esquerdas com o poder econômico mundial, ao menos, três gerações não poderão assistir à realização de seus sonhos: viver numa sociedade onde não haja explorados e exploradores, uma sociedade onde a competição seja substituída pela colaboração, onde o egoísmo seja substituído pela solidariedade.

Enfim, o que se deseja é uma sociedade onde o homem, e não o mercado, seja o centro e a razão de tudo.

Por incrível que pareça, isto que se mostra tão simples é algo quase que inalcançável, no momento atual…

O trabalho continua sendo uma “mercadoria” e a exploração continua como tragédia universal, “coisificando” as nossas relações pessoais.

Afranio Silva Jardim, professor associado de Direito da Uerj