
O prefeito de Camboriú, Leonel Pavan (PSD), criticou de forma direta a possível candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina. O ex-vereador do Rio de Janeiro deixou o cargo na Câmara Municipal carioca em dezembro para assumir uma função partidária no PL catarinense e se viabilizar eleitoralmente no estado.
Em entrevista divulgada pelo portal ‘Catarina Notícias’, Pavan classificou a estratégia do partido como inadequada e afirmou que Santa Catarina não pode ser tratada como um espaço de conveniência eleitoral. Para ele, trazer um político de outro estado apenas para disputar uma vaga majoritária ignora a realidade local e o histórico político catarinense.
“Acho uma loucura o que o PL está fazendo em Santa Catarina. Trazer um vereador lá do Rio de Janeiro só para ser candidato, como se nós fôssemos um balcão de negócios, que vai por emoção, eu acho uma loucura”, disse o prefeito.
Apesar das críticas, ele ponderou que a decisão cabe ao partido e aproveitou para condenar a polarização política. Segundo o prefeito, o embate permanente entre campos ideológicos extremos gera divisão social e afasta o debate de temas concretos ligados à renda e à vida cotidiana da população.
“O Brasil não merece dividir a população por esquerda e direita. Eu quero saber de quem ganha até R$ 5 mil e R$ 7 mil, o que vão dizer quando começarem a “liberar o imposto de renda”, se vão ser direita ou esquerda. É uma ignorância enorme esses extremos. Você acha que vou deixar de falar com o (presidente) Lula? Com Tarcísio (de Freitas, governador de São Paulo)?”, afirmou.
Leonel Pavan tem longa trajetória na política catarinense. Foi vice-governador entre 2007 e 2010 e chegou a comandar o estado por alguns meses após a renúncia de Luiz Henrique da Silveira para disputar o Senado. Antes disso, já havia sido eleito senador em 2002 e deputado estadual.
As tensões envolvendo a família Bolsonaro também alcançam Balneário Camboriú, cidade vizinha administrada por Juliana Pavan (PSD), filha do prefeito. Um dos vereadores do município é Jair Renan Bolsonaro, irmão de Carlos, que se mudou para Santa Catarina para construir sua carreira política.
Em setembro de 2025, Juliana Pavan criticou o desempenho do vereador ao comentar, em podcast, que ele deveria buscar “mais capacitação” e “ler mais” os projetos em tramitação. A declaração ocorreu após Jair Renan ter sido o único voto contrário a uma proposta do Executivo municipal para combater o furto de fios.
“Respeito o posicionamento dele, apesar de ele quase não se posicionar, e, quando se posiciona, eu não consigo entender o que ele fala”, disse a prefeita. A resposta veio pelas redes sociais, quando o vereador a chamou de “analfabeta funcional”.
Quintou e tem barraco protagonizado por um Bolsonaro nas redes! O filhote inapto do ex-presidente condenado foi pra cima da prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan.
Ela disse em entrevista ao @upiara ser de direita, mas recomendou que Jair Renan estudasse e disse não… pic.twitter.com/5ArhDwZRLc
— Amanda Miranda (@amanda_miranda) September 18, 2025
A possível candidatura de Carlos Bolsonaro também provoca resistência dentro do próprio PL. Uma ala do partido avalia que sua entrada na disputa reduziria o espaço político da deputada federal Carol de Toni, que também se apresenta como pré-candidata ao Senado por Santa Catarina.
O governador Jorginho Mello (PL), que tentará a reeleição, resiste a entregar as duas vagas ao Senado da chapa a nomes do mesmo partido. O cálculo é que isso dificultaria alianças com outras siglas. Ele já manifestou apoio ao senador Esperidião Amin (PP), o que deixaria apenas uma vaga disponível ao PL.
Entre as vozes críticas está a deputada estadual Ana Campagnolo, que relata ter sido alvo de ataques de bolsonaristas após discordar da estratégia. Em outubro, Carlos Bolsonaro a chamou de “mentirosa” ao rebater explicações dadas por ela sobre acordos partidários envolvendo o PL e o PP.
A rejeição à candidatura não se limita à capital ou à Assembleia. Em novembro do ano passado, o prefeito de Pouso Redondo, Rafael Tambozi (PL), também se manifestou contra a imposição do nome de Carlos Bolsonaro ao eleitorado catarinense.
“A gente gosta do nosso gadinho, trata bem os nossos bichinhos, mas o povo de Santa Catarina não é gado. E isso tem que ficar bem claro nesse momento em que as lideranças não se posicionam enquanto temos a imposição da candidatura do Carlos a senador”, afirmou.
Na mesma linha, o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), classificou a movimentação como ofensiva ao estado e disse que faria a mesma crítica a qualquer político que tentasse se transferir apenas em busca de votos.
“Entendo isso como uma agressão ao Estado. Não conheço Carlos pessoalmente, mas essa crítica eu faria a qualquer outro que quisesse se mudar para um estado meramente por uma questão de oportunidade de voto”, declarou.