Prefeito de Saint-Denis denuncia racismo na TV francesa e convoca protesto com 20 mil pessoas

Atualizado em 4 de abril de 2026 às 18:06
O protesto em Saint-Denis que reuniu 20 mil populares, contra as declarações racistas dadas pelo jornal francês CNews. Foto: Reprodução

O prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, do partido França Insubmissa (LFI), convocou neste sábado (4) uma manifestação contra o racismo em frente à prefeitura da cidade, na periferia de Paris. O ato foi uma resposta direta aos comentários racistas exibidos na emissora CNews, que compararam o político a um “símio” e a um “chefe de tribo”. A concentração reuniu cerca de 20 mil pessoas, segundo os organizadores, incluindo figuras da esquerda francesa, sindicatos e entidades antirracistas. “Basta”, declarou o prefeito, de ascendência malinesa, diante da multidão.

A polêmica começou no dia 27 de março, durante um programa da CNews, canal de propriedade do bilionário Vincent Bolloré e conhecido por sua linha editorial próxima à extrema direita. O psicólogo Jean Doridot afirmou em rede nacional: “É importante lembrar que o homo sapiens é um mamífero social, da família dos grandes símios. Em toda tribo, há um chefe cuja missão é instaurar sua autoridade”. As falas foram interpretadas como uma referência racista ao novo prefeito, que é negro e filho de imigrantes do Mali. Em outro programa da mesma emissora, o filósofo Michel Onfray acusou Bagayoko de ter um comportamento de “macho dominante”.

Desde sua vitória no primeiro turno das eleições municipais, em 15 de março, Bagayoko vinha sendo alvo de uma campanha de desinformação. No dia da eleição, uma frase falsa foi atribuída a ele: “Saint-Denis, a cidade dos negros”. A mentira foi propagada por perfis ligados à extrema direita nas redes sociais e denunciada pela Liga dos Direitos Humanos da França. O prefeito também sofreu ataques por uma de suas propostas de governo: o desarmamento progressivo da polícia municipal.

Bagayoko respondeu às provocações com ações concretas. Ele registrou queixa na Justiça contra a CNews, contra o psicólogo Jean Doridot e contra o filósofo Michel Onfray. O prefeito também pediu a intervenção da Arcom, a autoridade reguladora do audiovisual francês, que abriu uma investigação sobre o caso. Em entrevista à AFP, Bagayoko foi além e pediu o fechamento do canal: “Estamos obrigados a ter uma oferta midiática com canais racistas como a CNews? Eu digo que não”.

O prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, durante os atos que reuniram 20 mil pessoas. Foto: Reprodução

O protesto deste sábado contou com a presença do fundador do França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, e de representantes de sindicatos e de organizações como o SOS Racismo. O movimento também contou com o apoio de partidos de esquerda, incluindo o Partido Comunista e os Verdes. O governo francês classificou os ataques como “inaceitáveis”, e o prefeito da região de Saint-Denis se constituiu como parte civil na ação judicial a pedido do primeiro-ministro Sébastien Lecornu. No entanto, Bagayoko criticou o silêncio do presidente Emmanuel Macron, que não se pronunciou pessoalmente sobre o caso.

A CNews negou as acusações em comunicado, afirmando que os comentários foram tirados de contexto e que “nega formalmente que quaisquer comentários racistas tenham sido feitos” em sua programação. A emissora, que é líder de audiência entre os canais de notícias da França (com cerca de 3% de participação), afirmou que se trata de uma “polêmica fabricada”. Apesar da defesa, o caso acendeu um debate nacional sobre o racismo na mídia e a atuação do regulador.

O episódio ocorre em um contexto de ascensão da extrema direita na França e de crescente polarização política. O caso repercutiu internacionalmente, com cobertura da imprensa europeia e brasileira. Bagayoko, que assumiu a prefeitura de uma cidade de 150 mil habitantes com grande população imigrante, tornou-se um símbolo da luta contra o racismo institucional no país.

Com a mobilização popular e o apoio judicial do governo, o prefeito promete continuar a ofensiva contra o que classifica como “racismo descarado” na televisão francesa. “Racismo é crime, e ainda assim está sendo tratado como opinião”, lamentou um manifestante durante o protesto. A organização SOS Racismo e o MRAP também anunciaram ações judiciais contra a emissora.

Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política e estagiária pelo Diário do Centro do Mundo.