Prefeitura de Nunes repassou R$ 545 milhões a empresas com suspeitas de fraude

Atualizado em 26 de março de 2026 às 11:21
O bolsonarista Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo. Foto: Reprodução

Entre 2022 e 2026, a Prefeitura de São Paulo repassou pelo menos R$ 545 milhões a 15 empresas e ONGs com laços administrativos e fiscais entre si. A verba foi destinada a financiar eventos de grande porte, como o Carnaval de Rua e o Natal Iluminado, além de iniciativas como a Virada Esportiva e programas de saúde para mulheres.

Uma análise de 34 contratos e 57 aditivos feita pelo UOL revelou que três dessas empresas, MM Quarter, ASA e Mundo Melhor, compartilham fornecedores e, em alguns casos, endereços comerciais. As suspeitas de irregularidades começaram a ser investigadas em fevereiro de 2026, após o prefeito Ricardo Nunes (MDB) demitir Gustavo Pires, presidente da SPTuris, e Rodolfo Marinho, secretário-adjunto de Turismo.

A Controladoria-Geral do Município (CGM) identificou a MM Quarter como um foco central da apuração. A empresa era controlada por Marinho por meio de procuração, mesmo após sua nomeação ao cargo público, o que gerou desconfiança.

A CGM suspeita de uma “sociedade oculta” entre Marinho e Nathalia Carolina da Silva Souza, dona oficial da MM Quarter, envolvendo também outras entidades ligadas à gestão pública de São Paulo. Empresas e ONGs subcontratadas compartilhavam fornecedores e, em alguns casos, sedes físicas, configurando possíveis manipulações no processo de contratação.

Casa na Vila Morse, região do Morumbi, é citada como sede da JSRN Eventos e Servrun. Foto: Bruno Luiz/UOL

A MM Quarter e outras empresas do grupo, como a ASA, possuem CNPJs registrados no mesmo endereço, o que levanta questões sobre a transparência e a independência operacional das instituições envolvidas. Há indícios de que essas empresas utilizam práticas de subcontratação entre si, permitindo que contratos de grande valor sejam disputados entre entidades com vínculos familiares ou comerciais estreitos.

Também há uma estratégia de licitação que favorecia empresas do grupo. A MM Quarter, por exemplo, venceu licitações com propostas acima das de seus concorrentes, sendo posteriormente favorecida com aditivos que aumentavam o valor dos contratos, muitas vezes sem o processo competitivo esperado em licitações públicas.

Modelos de contrato adotados pela Prefeitura, como os termos de fomento e cooperação, foram apontados como facilitadores de irregularidades. Especialistas em direito administrativo alertaram para a possibilidade de conluio entre empresas do mesmo grupo, o que prejudica a concorrência e pode resultar em superfaturamento e direcionamento de recursos públicos.

O Ministério Público de São Paulo, em colaboração com a CGM, segue investigando o caso. A Prefeitura alegou que todas as empresas com indícios de fraude estão sendo auditadas e medidas como o rompimento de contratos e demissões poderão ocorrer conforme o avanço das apurações.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.