Prefeitura de SP liberou R$ 1 milhão à igreja do bolsonarista Valadão sem explicar motivo

Atualizado em 2 de fevereiro de 2026 às 16:39
O pastor André Valadão e o prefeito de SP, Ricardo Nunes. Foto: Divulgação

A Prefeitura de São Paulo ampliou, a menos de 24 horas da realização do evento, o patrocínio destinado à virada evangélica Vira Brasil 2026. O valor repassado à Convenção Lagoinha passou de R$ 4 milhões para R$ 5 milhões, sem justificativa formal registrada e sem a previsão de novas contrapartidas por parte da organização religiosa responsável pelo evento.

O recurso adicional de R$ 1 milhão foi destinado à igreja liderada pelo pastor bolsonarista André Valadão. O aditivo contratual foi assinado pelo secretário municipal de Turismo, Rui Alves, na noite de 30 de dezembro, poucas horas antes do réveillon realizado na Neo Química Arena.

A transferência bancária da prefeitura para a conta da Lagoinha ocorreu antes mesmo da assinatura de Valadão no aditivo, o que indica que o pagamento foi efetuado antes da formalização completa do contrato. A ampliação do patrocínio não passou por análise da área técnica da secretaria e não teve justificativa pública detalhada.

O contrato original previa “a locação de espaço e estrutura completa de palco para a realização do evento, tendo como contrapartida a inserção da logomarca da Prefeitura de São Paulo em todos os materiais de divulgação”. Essas cláusulas permaneceram inalteradas, mesmo com o aumento do valor, o que levou a administração a pagar mais pelas mesmas entregas previstas inicialmente.

A Convenção Lagoinha mantém entre seus pastores Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcardo e apontado como principal doador de campanhas de aliados do prefeito Ricardo Nunes, como o governador Tarcísio de Freitas e o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Tarcísio, Bolsonaro e Ricardo Nunes. Foto: Divulgação

O Vira Brasil teve transmissão pelo SBT e contou com venda de ingressos de até R$ 700 em uma área VIP com mais de 9 mil lugares no gramado do estádio. Havia ainda um setor especial, com ingressos de R$ 7 mil, que dava direito a participar do sorteio de um carro. As arquibancadas tiveram entrada gratuita.

Com o aditivo, o valor destinado apenas ao Vira Brasil superou em dobro o orçamento reservado pela prefeitura ao fomento do carnaval de rua, que soma R$ 2,5 milhões. Blocos carnavalescos têm criticado o valor de R$ 25 mil oferecido a cada grupo, considerado insuficiente para custear os desfiles.

Diante das críticas, Nunes afirmou que os blocos não devem depender exclusivamente do poder público. “A prefeitura de São Paulo incentiva que as pessoas tenham sempre o seu despertar de empreendedorismo. Ficar acomodado, querendo tudo do governo, não é por aí. Cada um também tem que ter a sua parte de buscar o patrocínio.” O Vira Brasil, por sua vez, não contou com patrocínios privados.

Em nota, a Secretaria Municipal de Turismo informou que o “aditamento do contrato foi feito de acordo com a legislação vigente, contemplando estrutura completa de sonorização, pirotecnia e locação de geradores”. A pasta afirmou ainda que o patrocínio de eventos religiosos está entre suas atribuições institucionais.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.