
O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, acusou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de minimizar o sacrifício de soldados britânicos mortos no Afeganistão ao afirmar que tropas da OTAN teriam evitado a linha de frente do conflito. As declarações provocaram reação imediata de parlamentares, veteranos de guerra e familiares de militares em todo o espectro político britânico.
A polêmica começou após uma entrevista de Trump à Fox News, na qual ele sugeriu que a OTAN não estaria disposta a apoiar os Estados Unidos em caso de necessidade. Ao comentar a participação da aliança no Afeganistão, afirmou que os aliados “enviaram algumas tropas”, mas que elas teriam ficado “um pouco afastadas, fora da linha de frente”. Dias antes, em Davos, Trump já havia feito comentários semelhantes, colocando em dúvida o compromisso dos 32 países membros da OTAN.
Em resposta, um porta-voz oficial de Starmer declarou que o presidente americano “estava errado ao diminuir o papel das tropas da OTAN, incluindo as forças britânicas no Afeganistão”, e reforçou que o Reino Unido tem orgulho de suas Forças Armadas e dos sacrifícios feitos no conflito. Ao todo, 457 militares britânicos morreram no Afeganistão ao longo de 20 anos de guerra. No conjunto da OTAN, foram 3.486 mortos, sendo 2.461 dos Estados Unidos.
As falas de Trump também reacenderam críticas ao fato de ele próprio não ter servido nas Forças Armadas, após evitar a convocação para a Guerra do Vietnã alegando problemas médicos nos pés, uma justificativa frequentemente contestada. Para líderes políticos britânicos, o contraste torna as declarações ainda mais ofensivas.
🚨 BREAKING: Keir Starmer has called on Donald Trump to apologise for his "insulting and frankly appalling" comments about British troops in Afghanistan pic.twitter.com/NnXlvlAnEd
— Politics UK (@PolitlcsUK) January 23, 2026
A líder conservadora Kemi Badenoch classificou os comentários como “nonsense absoluto” e acusou Trump de “denegrir” os soldados britânicos. Os Liberais Democratas pediram que o governo britânico convoque o embaixador dos EUA para explicações formais. Já o secretário de Defesa, John Healey, afirmou que o Reino Unido e seus aliados “atenderam ao chamado dos Estados Unidos” e que os mortos devem ser lembrados como heróis.
Sem citar Trump diretamente, o ministro das Forças Armadas, Al Carns, veterano de quatro missões no Afeganistão e condecorado por bravura, chamou as declarações de “completamente ridículas” e afirmou que britânicos e americanos “derramaram sangue, suor e lágrimas juntos”, ressaltando que muitos não voltaram para casa.
Familiares de veteranos também se manifestaram. Diane Dernie, mãe de um soldado gravemente ferido por uma mina em 2006, disse que as palavras do presidente americano são “inacreditáveis” e representam “o insulto final” às famílias que ainda convivem com as consequências da guerra.
A crise ocorre em um momento de tensão mais ampla entre Trump e aliados europeus, incluindo disputas recentes com a Dinamarca sobre a Groenlândia. Para parlamentares britânicos e especialistas em defesa, o episódio aprofunda o desgaste da relação transatlântica e coloca em xeque o discurso de Trump sobre lealdade dentro da OTAN.