Antes de defender cloroquina, presidente do CFM admitiu que médicos sabiam da máfia das próteses

Bolsonaro e Mauro Ribeiro, presidente do CFM, no Planalto

A atitude criminosa do Conselho Federal de Medicina frente ao uso de cloroquina está longe de ser uma exceção na história da entidade.

O Ministério Público Federal de São Paulo abriu um inquérito civil contra o grupo por conta da sua atuação diante do chamado “tratamento precoce” contra a covid-19. Além disso, a CPI incluiu o presidente Mauro Luiz de Britto Ribeiro, bolsonarista e negacionista, entre os investigados.

Em 2015, explodiu o escândalo da “Máfia das Próteses”. Sete médicos do DF foram presos em uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público em uma ação que apurava a existência de uma organização criminosa que ganhava dinheiro instalando órteses e próteses em pacientes que não precisavam delas.

Cerca de 60 pessoas foram lesadas num esquema envolvendo cirurgias desnecessárias, superfaturamento de equipamentos e uso de material vencido em pacientes. Empresas entravam livremente nas salas de operações.

Uma CPI foi criada. O doutor Mauro chegou a participar de uma audiência pública no Congresso. Ele era, à época, vice-presidente do CFM. 

Admitiu, veja só, que a existência de uma máfia das próteses já era do conhecimento dos médicos. Segundo Ribeiro, notícias sobre cirurgias e implantes desnecessários percorriam corredores de hospitais havia vários anos.

Por que não eram fiscalizadas? A culpa era dos pacientes — que não abriam o bico.

“As pessoas simplesmente não denunciam. Então, é muito difícil a investigação. No entanto, em um levantamento que nós fizemos no Conselho Federal de Medicina, de 2004 a 2014, foram 28 cassações do exercício profissional, 26 punições na alínea b [do Código de Ética do Conselho], que é a suspensão do exercício profissional, e 140 punições na alínea c, que é a censura pública e publicação oficial. Isso para todos os médicos envolvidos com algum tipo de mercantilismo na medicina”, disse.

Como sempre, os maus profissionais eram “exceções”. Na ocasião, deu uma sugestão que hoje ignora quando insiste na autonomia médica para indicar remédios ineficazes e, eventualmente, mortais contra o coronavírus: procurar uma segunda opinião.

No relatório concluído em 2018, a CPI das Próteses sugeriu, entre outras medidas, pena de dois a quatro anos de prisão para médico que realizasse cirurgia desnecessária, envolvendo a colocação de dispositivo implantável. Se a cirurgia resultasse na morte, a prisão variava de seis a quinze anos.

Acabou em pizza. Nada disso, obviamente, foi aprovado. Se fosse, talvez os carrascos da Prevent Senior não se sentissem tão à vontade para matar.