Presidente do PSOL erra ao negar que EUA podem ter incentivado protestos de junho de 2013. Por Joaquim de Carvalho

Em 2013, não podia usar bandeira de partido político, mas podia xingar a presidente, num país que vivia situação de quase pleno emprego. Foto: Ricardo Galhardo/IG

O presidente do PSOL, Juliano Medeiros, tirou uma frase de Lula do contexto para fazer o tuíte lacrador sobre as manifestações de 2013, e se deu mal. Recebeu uma enxurrada de críticas fundamentadas por defender posições que o aproximam do MBL, o movimento de direita que também vê nas passeatas daquele ano um movimento espontâneo de defesa de serviços públicos de qualidade. Fosse assim, com a precariedade dos serviços prestados hoje por diferentes níveis de governo, a população estaria de novo nas ruas.

Para entender a polêmica, no entanto, registremos o que escreveu Juliano Medeiros:

“Quer dizer que as centenas de historiadores, sociólogos e cientistas políticos de ESQUERDA estão perdendo tempo ao estudar 2013 como um fenômeno social complexo que estava em disputa porque, na verdade, tudo não passou de uma armação da CIA? Discordo.”

Na entrevista de mais de 30 minutos ao jornalista Nacho Lemus, Lula não mencionou uma única vez CIA e, sempre que falava, tinha o cuidado de dizer “Eu acho”, para depois expor argumentos que permitem a conclusão de que os Estados Unidos estiveram por trás do movimento que golpeou a democracia no país, com a derrubada de Dilma Rousseff e a condenação e prisão do próprio Lula, que o tirou da disputa eleitoral que certamente evitaria a ascensão de Jair Bolsonaro.

Nacho Lemus realizou a entrevista pela TV pública Telesur, que é mantida por governos de esquerda na América Latina e tem sede na Venezuela.

Nacho perguntou a Lula se existem diferenças entre as manifestações que ocorrem atualmente em vários países da América Latina e aquelas que aconteceram no Brasil em 2013.

“A diferença é que essas manifestações são feitas para conquistar direitos. As manifestações de 2013 foram feitas já fazendo parte do golpe contra o PT”, respondeu Lula.

“Elas já foram articuladas para garantir o golpe, porque elas não tinham reivindicações específicas. Não tinhma reivindicação específica. As manifestações começaram como parte do golpe incentivadas pela mídia brasileira, incentivadas eu acho que, inclusive, de fora para dentro. Acho que já teve o braço dos Estados Unidos nas manifestações do Brasil.”

Na polêmica levantada por Juliano Medeiros, alguém lembrou que o protesto começou com a reivindicação de revogação do aumento de 20 centavos no preço da tarifa de transporte.

Sim, é verdade.

Mas essa reivindicação foi atendida nos primeiros dias, e os protestos continuaram, com um miríade de reivindicações que se resumiam na frase padrão Fifa.

No meio da manifestação, surgiram também placas defendendo a não aprovação da PEC 37, uma proposta de emenda que reafirmaria o princípio constitucional de que a investigação cabe à polícia, com controle externo do ministério público.

Promotores e procuradores não são tiras, supervisionam os policiais, para evitar abusos e desvio das investigações, mas não investigam diretamente.

É, em síntese, o que definiu a Constituição. Mas, com o passar dos anos, membros do ministério público começaram a realizar inquéritos, muitas vezes sem a participação de policiais e sem nenhum regra definida no código de processo penal.

A PEC 37 acabava com isso e, uma vez aprovada, dificilmente haveria Lava Jato. Pelo menos, não no padrão atualmente visto.

A maioria do povo nem sabia o que era PEC 37, mas os jornais davam destaque a essa reivindicação. A PEC 37 acabou rejeitada, no auge das manifestações.

Não havia reivindicação específica. Foto: Futura Press

Logo surgiram nas passeatas  cartazes de “Fora, Dilma”, ao mesmo tempo em que era proibido o uso de bandeiras de partidos políticos.

Estava, evidentemente, plantada a semente que viria dar no fruto Bolsonaro. Era a criminalização da política. Na entrevista — que Juliano Medeiros, pelo jeito, não viu —, Lula trata do tema da criminalização da política.

“A política está desacreditada, e não só no Brasil. E a quem interessa desacreditar a política?”, questionou o ex-presidente. “As elites financeiras”, ele mesmo respondeu, para em seguida desenvolver o raciocínio:

“Hoje não existe mais preocupação com o sistema produtivo de um país. Hoje, o que está acontecendo no mundo é a financeirização da economia. São grupos e grupos, centenas e centenas de fundos e você não sabe quem é o dono. Você não sabe com quem conversar. Que estão especulando. É por isso que, no Brasil, a Bolsa cresce 110 mil pontos e o desemprego cresce.”

Lula não fala em CIA por trás de movimentos que servem à criminalização da política e a movimentos especulativos que, derrubando e levantando índices econômicos, produzem o enriquecimento de uns e o empobrecimento de outros. Mas o ex-presidente dá pistas de que houve ação externa no golpe desencadeado no Brasil — no qual as manifestações de junho tiveram, obviamente, importância.

Falando sobre o papel da OEA no golpe da Bolívia, ele disse:

“Acho que o que está acontecendo na América Latina é uma articulação profunda da extrema direita liderada pelos Estados Unidos, liderada pelo Trump e seus assessores, liderada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Uma perseguição. É quase uma tentativa de destruir aquilo que conquistamos de democracia na América Latina. Aliás, em 500 anos de história, não conheço uma única atitude americana em benefício da autonomia e da liberdade de algum país na América Latina. Os Estados Unidos têm se comportado, me parece, para tentar evitar a influência da China na América Latina, para tentar enfrentar a importância da Rússia no mundo geopolítico, os americanos resolveram tomar a América Latina outra vez. Ou seja, a América Latina não tem que ter protagonismo, a América Latina não tem que ter independência, a América Latina não tem que ter política própria. São os Estados Unidos que determinam o que a gente vai fazer, e o Bolsonaro se submeteu a isso, se submeteu da forma mais vergonhosa possível, batendo continência à bandeira americana, quase que oferecendo a Amazônia para o governo americano. Isso é uma vergonha, isso nunca aconteceu no Brasil. Um país que tem autoestima, um país que tem orgulho próprio, um país que tem amor a si mesmo não pode aceitar essa submissão.”

O jornalista venezuelano lembrou que, uma semana depois da condenação de Lula pelo caso do sítio de Atibaia, um conselheiro de assuntos políticos da Embaixada dos Estados Unidos visitou o Tribunal Federal Regional da 4a. Região.

“Penso que é uma vergonha, um vexame”, disse Lula, que sugeriu ao Conselho Nacional de Justiça, ao Conselho Nacional do Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal que olhem com muita atenção a submissão da Operação Lava Jato aos Estados Unidos.

“A Operação Lava Jato ameaçou a democracia no Brasil, ameaçou a Câmara dos Deputados, o Senado, todas as outras instituições e ameaçou a Suprema Corte várias vezes.

Lula lembrou que, quando prestou depoimento a Moro, já vinha observando a quantidade de viagens que membros da Lava Jato, incluindo o juiz, fizeram aos Estados Unidos, especialmente ao Departamento de Justiça. “Nós temos inclusive vídeos de procuradores americanos felizes com a minha prisão. Agora, um representante político da Embaixada visita um tribunal que passou meu processo na frente de 1941 processos, um tribunal que não votou o meu processo, votou o desrespeito à Suprema Corte, foi um desafio. Essa gente não pode ficar impune”, comentou.

Lula disse que a visita do representante político da Embaixada é uma ofensa à soberania do Brasil e um dia os membros da Lava Jato serão responsabilizados pelos prejuízos causados ao país, especialmente à economia.

É claro que os Estados Unidos não organizaram diretamente as manifestações de junho de 2013, mas deram sinais de que queriam o enfraquecimento do governo de Dilma Rousseff.

Os arquivos revelados por Edward Snoden, ex-agente da CIA e analista da NSA, revelam que o Brasil, entre 2010 e 2012, foi o país mais espionado pelo serviço secreto americano, com base em dados interceptados. A própria Dilma foi interceptada.

O Brasil tinha assumido protagonismo geopolítico e tinha também descoberto as maiores reservas de petróleo do século XXI. Ignorar esses fatos é contribuir para a mistificação da história.

É claro que as manifestações de junho de 2013 tiveram outros motivações além de uma possível ação externa. Assim como, em 1964, houve, de fato, ação de grupos religiosos na organização de atos para derrubar João Goulart.

Mas, no essencial, quem garantiu o golpe de 64? O governo americano, como já está fora de questão.

No futuro, se saberá com mais nitidez quem esteve por trás do golpe que teve seu marco inicial nas manifestações de 2013. Que grupos foram financiados e por quem.

Hoje, negar a possibilidade de ação externa nos atos preparativos do golpe, incluindo aí as manifestações de junho de 2013, é, no mínimo, ingenuidade. O Brasil daquela época tinha muitos problemas, inclusive de serviços públicos, mas, às vésperas de sediar uma Copa do Mundo e se tornar vitrine do mundo, era reconhecido mundialmente por seus êxitos, como um país de quase pleno emprego, em meio à crise mundial, e a ascensão do que se chamou à época de uma nova classe média.

Juliano Medeiros. Foto: Reprodução/Twitter

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A entrevista de Lula à Telesur:

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