
O PL Mulher, presidido por Michelle Bolsonaro, tem ignorado nas redes sociais a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência, revelando um racha interno sobre o projeto eleitoral do clã Bolsonaro para 2026. O silêncio contrasta com a linha adotada pela direção nacional do partido e expõe divergências entre Michelle e os filhos de Jair Bolsonaro.
Um levantamento do UOL mostra que as páginas do PL Mulher não fizeram nenhuma menção a Flávio desde que a pré-candidatura foi anunciada publicamente, em 5 de dezembro, quando o ex-presidente indicou o filho para a disputa presidencial. Passados quase dois meses, não houve qualquer referência ao senador nos canais comandados pela ex-primeira-dama.
O comportamento difere do adotado pelo PL nacional. No mesmo período, o perfil oficial do partido no Instagram publicou mais de 40 postagens citando Flávio, muitas delas apresentando sua pré-candidatura como continuidade do legado do pai.
A ausência de apoio se repete nas redes pessoais de Michelle Bolsonaro. Desde o anúncio da pré-candidatura, não há registros de publicações da ex-primeira-dama mencionando o enteado ou a disputa presidencial.
Em contraste, Michelle usou seus perfis para exaltar o deputado Nikolas Ferreira, responsável por uma caminhada recente. Em dois posts, ela o chamou de “grande líder” e de “separado por Deus para este tempo”.
As publicações foram interpretadas por bolsonaristas como provocação e sinal de distanciamento em relação à candidatura de Flávio.
Disputa com os filhos de Bolsonaro
Segundo aliados do bolsonarismo ouvidos sob condição de anonimato, o silêncio de Michelle estaria ligado a rusgas com os enteados. A ex-primeira-dama não teria ficado satisfeita com a decisão de Jair Bolsonaro de ungir Flávio como pré-candidato, o que encerrou seus próprios planos eleitorais para 2026.
Michelle nutria o desejo de disputar a Presidência ou de ser vice em uma chapa apoiada pelo marido. No entorno dela, o cenário mais bem avaliado era uma composição com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Com a escolha de Flávio, a alternativa mais provável passou a ser uma candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.

Críticas internas e cobrança por engajamento
O comportamento de Michelle tem sido alvo de críticas dentro do bolsonarismo. Uma liderança próxima aos filhos de Bolsonaro afirmou que a ex-primeira-dama estaria colocando interesses pessoais acima de um projeto político liderado por Flávio e conduzido pelo próprio Jair Bolsonaro.
“Ela age como uma menina mimada que perdeu o brinquedo”, disse outro aliado, que também afirmou que Michelle tinha “obrigação” de demonstrar apoio ao senador por consideração ao marido preso. Para esses críticos, a ex-primeira-dama deveria usar seu capital político para impulsionar a pré-candidatura.
Aliados avaliam que Michelle poderia ajudar Flávio especialmente entre evangélicos e no eleitorado feminino, segmentos em que o bolsonarismo enfrenta dificuldades. Há também a leitura de que a estrutura do PL Mulher poderia ser utilizada para divulgar a pré-candidatura do senador.
Antes, Michelle vinha realizando viagens pelo país em eventos do partido. Essas agendas eram vistas como oportunidades para difundir a mensagem eleitoral. No entanto, as viagens foram suspensas.
Em 21 de janeiro, Michelle anunciou o adiamento de um evento do PL Mulher que ocorreria em fevereiro, no Tocantins, citando a situação de Jair Bolsonaro. Em dezembro, cancelou um encontro no Rio, alegando motivos médicos. As justificativas, porém, não convenceram o entorno dos filhos do ex-presidente.
Relação marcada por desgastes recentes
A relação entre Michelle e os enteados acumula atritos. No início de dezembro, ela criticou o PL por articular uma possível aliança com Ciro Gomes no Ceará. “Assim não dá”, disse, causando constrangimento interno.
🇧🇷 AGORA: Michelle Bolsonaro constrange André Fernandes após a aproximação do PL-CE com Ciro Gomes, único candidato com chances de vencer o PT no Ceará.
Durante as críticas, o deputado cearense gesticulou contrariado com as mãos.
“Fazer alianças com um homem (Ciro Gomes) que é… pic.twitter.com/CvaPhotrPe
— Central da Direita 🇧🇷 (@CentralDireitaB) November 30, 2025
Flávio classificou a atitude como “autoritária e constrangedora”, posição reforçada por Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro nas redes sociais. Michelle chegou a pedir desculpas, mas manteve as críticas à articulação.
Outro episódio recente envolveu Tarcísio de Freitas. Michelle repostou um vídeo do governador com críticas ao presidente Lula, gesto interpretado como mais um sinal de rejeição à candidatura de Flávio e de articulação para integrar uma chapa presidencial alternativa.
Ela também curtiu um comentário da esposa de Tarcísio, Cristiane, que dizia que o Brasil precisa de um “novo CEO, meu marido”. Para parte do bolsonarismo, a frase indicaria apoio a uma candidatura presidencial do governador; para outros, tratava-se apenas de um vocativo.