Preso por ligação com o CV, Bacellar é cria de Flávio e Jair Bolsonaro e pode delatar a família

Atualizado em 30 de março de 2026 às 9:21
Flávio Bolsonaro e Rodrigo Bacellar

A nova prisão de Rodrigo Bacellar (União Brasil), na sexta-feira (27), recoloca no centro do debate a relação íntima entre o bolsonarismo no Rio de Janeiro e figuras investigadas do crime organizado.

O ex-deputado, já cassado, foi detido pela Polícia Federal em Teresópolis por suspeita de atuar diretamente para o Comando Vermelho, incluindo vazamento de informações sigilosas, tentativa de obstrução de operações policiais e orientação para destruição de provas.

Segundo a Procuradoria-Geral da República, Bacellar repassou dados de uma operação da PF ao então deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado como ligado ao CV.

A investigação indica que as informações teriam origem no Judiciário e foram usadas para frustrar ações contra o bando. Ele já havia sido preso anteriormente pelo mesmo tipo de acusação e, agora, foi encaminhado ao presídio de Benfica.

Bacellar foi incorporado ao núcleo político da família Bolsonaro ao longo de 2024, com reuniões em Brasília, alinhamento eleitoral e construção de uma candidatura ao governo do Rio em 2026.

O senador Flávio Bolsonaro, o presidenciável da família, chegou a tratar o nome como viável, embora tenha recuado publicamente após a crise, afirmando que o grupo “se precipitou” ao apoiar sua pré-candidatura.

A articulação foi além de conversas. Bacellar se reuniu com Jair Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, recebeu a medalha simbólica de “imorrível, imbrochável, incomível” e negociou uma chapa com o empresário Renato Araújo, aliado antigo da família.

O acordo para a candidatura foi fechado em maio, com aval direto do ex-presidente, que condicionou o apoio à presença de Araújo como vice.

A relação avançou mesmo com Bacellar envolvido em outros escândalos, como o das “folhas de pagamento secretas” no governo do Rio, ao lado do governador Cláudio Castro. O caso levou à cassação do mandato e deve provocar recontagem dos votos das eleições de 2022, com impacto na composição da Assembleia Legislativa.

A aproximação com Bacellar é um problema enorme para Flávio Bolsonaro, que já convive com investigações e desgaste político relacionados a milícias no Rio de Janeiro. O telhado de vidro do Zero Um, em se tratando de bandidagem, é gigantesco. 

Flávio tem adotado um tom agressivo no exterior ao tratar do tema. Em discurso nos Estados Unidos, no sábado (28), afirmou que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva “usou lobby pesado com certos conselheiros americanos para evitar que os dois maiores cartéis de drogas do Brasil fossem classificados como organizações terroristas”.

“O presidente do meu país faz lobby na América para proteger organizações terroristas que oprimem meu povo e exportam armas, lavam dinheiro e exportam drogas para os Estados Unidos e o mundo”, declarou.

E se Bacellar e seus comparsas delatarem Flávio? A família incorporou e projetou bandidos, um deles agora preso sob suspeita de colaborar com o Comando Vermelho. Não foi e não será o único. Se ele abrir o bico, caem todos.

Bacellar e Jair Bolsonaro
Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.