Pressão para “achar” votos: entenda o impacto e a gravidade da interferência de Donald Trump

O presidente dos EUA, Donald Trump, se reúne com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington (EUA).
Isac Nóbrega/PR

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR DANIEL GIOVANAZ

O jornal The Washington Post, um dos mais lidos nos Estados Unidos, divulgou no último final de semana um telefonema em que o presidente Donald Trump pressiona o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, a “encontrar” 11.779 votos para o Partido Republicano nas eleições presidenciais de 2020, o suficiente para reverter sua derrota no estado.

A notícia repercutiu como prova da interferência de Trump na apuração dos votos. Os principais analistas políticos dos EUA, no entanto, descartam a possibilidade de uma condenação do político republicano em tribunais superiores, mesmo após deixar o cargo de presidente. O adversário dele, Joe Biden, do Partido Democrata, venceu o pleito em novembro, mas Trump não reconhece a derrota.

Breno Altman, jornalista e fundador do portal Opera Mundi, ressalta que as informações divulgadas pelo The Washington Post apontam para uma violação explícita da legislação eleitoral e “vão além” das denúncias de interferência e pressões que se conheciam até então.

“É o presidente tentando pressionar um secretário a alterar o resultado eleitoral em um estado relevante, no qual Trump considerava certa sua vitória”, enfatiza.

“O que ele [Trump] está fazendo, ao manter a alegação de fraude, é manter diálogo com o núcleo duro de seus apoiadores”, acrescenta Altman. “Ele aproveita os últimos dias de governo para passar sinais de que está disposto, mesmo de fora, a dar combate aos democratas”, complementa o jornalista.

Para Flávio Thales Ribeiro Francisco, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e da Pós-Graduação em Economia Política Mundial, o vazamento do telefonema pode até ser positivo para Trump junto a sua base eleitoral.

“Donald Trump sabe que vai sair da Casa Branca e passar o poder ao Joe Biden, mas precisa deixar a mensagem de que as eleições foram fraudadas”, avalia. “Porque a base tem apoiado essa ideia, esse argumento de que as eleições foram fraudadas”, analisa o professor.

O professor da UFABC lembra do histórico de Trump na indústria do entretenimento. “Ele é muito habilidoso no sentido de fazer uma performance. É claro que ele não esperava que isso chegasse ao público, mas, já que chegou, não é tão negativo assim, porque a mensagem que ele quer enviar o tempo todo é a de que há uma fraude e ele está lutando contra ela”, acrescenta.

Ainda sobre os possíveis impactos políticos, o professor analisa que o vazamento do telefonema aprofunda as disputas no Partido Republicano. “Tem os republicanos que apoiam a linha de atuação do Donald Trump, como o senador Ted Cruz; e aqueles que consideram Trump uma figura autoritária e que tentam fazer com que o partido volte a uma certa normalidade”, avalia.

Francisco não acredita que Trump disputará um novo pleito, mas prevê que seu capital político será disputado por outras figuras do partido nas próximas eleições, uma vez que sua votação foi expressiva mesmo em estados de maioria democrata.

Altman discorda que o gesto de Trump aprofunde uma cisão no interior do Partido Republicano. “Trump tem controle absoluto sobre o partido. Embora tenha seus desafetos, a situação dele hoje é bastante confortável”, analisa.

Do ponto de vista jurídico, o jornalista especializado em cobertura internacional não acredita que o atual presidente dos EUA terá problemas. “Pode haver alguma repercussão em primeira instância, mas não acredito que isso avance. Nunca um ex-presidente dos Estados Unidos respondeu a um processo criminal depois de deixar o cargo”, finaliza Altman.