Preta Gil e a espetacularização da dor. Por Nathalí

Atualizado em 7 de junho de 2023 às 11:51
Preta Gil recebe seu pai, Gilberto Gil durante internação no tratamento contra o câncer. (Foto: Reprodução)

Cada pessoa atravessa o seu inferno à sua maneira. Uns escrevem, outros pintam, tocam, fazem teatro, estudam astrologia. Eu respeito todas as maneiras de se atravessar um inferno, um inferno como um câncer, por exemplo.

Preta Gil tem atravessado esse inferno sob os holofotes. A cantora, que luta contra um câncer no reto, não poupa detalhes sobre seu estado de saúde. “Quando eu fazia as fezes, era com sangue, com muco”, disse a Ana Maria Braga no Mais Você.

Tudo bem ter a sua maneira de atravessar o inferno. Eu tenho cá as minhas, e são também bastante esquisitas, mas contar detalhes sobre as suas fezes em um programa de TV é um pouco demais.

Na entrevista, a cantora fala de queimaduras no reto, radioterapia, morfina e separação.

Talvez numa tentativa de pedir socorro em um momento de extrema fragilidade, ela espetaculariza a própria dor sem lembrar de quando o pai lindamente cantou: “Sabe, gente…. eu sei que, no fundo, o problema é só da gente…”

É triste acompanhar tão de perto o sofrimento de Preta Gil, que faz questão de torná-lo atração, seja para atrair para si uma espécie de corrente do bem, seja por medo da morte, seja só por vontade de bombar o próximo disco… não importa.

Coragem é sair à francesa, como Rita Lee, que nem nas autobiografias espetacularizou ou próprio sofrimento, pelo contrário: procurou falar pouco sobre ele, e de um jeito pouco comum, com um auto-desdém sem lágrimas a là Fernando Pessoa.

Preta Gil prefere cair diante dos holofotes – uma escolha dura, quase ininteligível, mas também admissível quando se trata de “maneiras de atravessar o próprio inferno.” Eu, de cá, preferiria o silêncio, como diria Galeano: “Esse, quando cai liquidado, cai calado.”

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