Primo pobre de Trump, Bolsonaro golpeia Mercosul e política externa. Por Vinícius Rodrigues Vieira

Publicado originalmente no Entendendo Bolsonaro:

POR VINÍCIUS RODRIGUES VIEIRA

Terminada a 55ª Cúpula do Mercosul, realizada em Bento Gonçalves (RS), em 5 de dezembro, cabe perguntar: o presidente Jair Bolsonaro está realmente disposto a adotar uma política externa mais pragmática, tal como sua mudança de comportamento perante a China nos últimos dois meses vinha sugerindo?

A ausência do presidente-eleito da Argentina, o peronista Alberto Fernandez — que não foi convidado pelo anfitrião Bolsonaro, que comandou o bloco nos últimos seis meses — sugere que a diplomacia brasileira não voltará a ser moldada em função da busca por desenvolvimento econômico.

Segundo estudiosos de política externa brasileira, foi esse o eixo central das relações internacionais do país após a Segunda Guerra Mundial, sobretudo depois dos anos 1960.

Não que Bolsonaro despreze o Mercosul, bloco que, aliás, ele gostaria de continuar a presidir. “Queria dar um golpe. Queria continuar presidente, não dá pra dar um golpe, não?”, disse o presidente, sem saber que era gravado, ao ouvido de seu colega paraguaio Mario Abdo Benítez, que comandará a organização nos próximos seis meses, seguindo o sistema de presidência rotativa entre chefes de Estado dos países membros.

Tal como os golpes contra a democracia, aqueles contra os projetos de desenvolvimento são paulatinos. Ainda que sem intenção, a fala e suposta brincadeira (inapropriada) de Bolsonaro indica que o Mercosul idealizado por gerações de diplomatas comprometidos com o progresso do país pode estar com seus dias contados.

Aliás, diria que golpe já foi dado por Bolsonaro contra o Mercosul, a integração regional e a política externa brasileira. Ele transcorreu em doses pequenas ao longo de quase um ano em que o atual mandatário está à frente do Planalto, em atitudes como a recusa em parabenizar Fernández pela vitória — alegando que se trata de um esquerdista — e a aproximação aos EUA, de forma nada coordenada com os vizinhos, em particular a Argentina, sem falar no fim da Unasul, bloco estratégico que abarcava todos os países da América do Sul e poderia servir de base para a expansão do Mercosul.

No lugar da Unsaul, entrou a Prosul, projeto ainda nebuloso e cujo real valor para a diplomacia brasileira não está claro haja vista a reação discreta de Brasília à onda de protestos contra governos de esquerda e direita na região.

Com a saída do centro-direitista Maurício Macri da Casa Rosada em 10 de dezembro, o relacionamento com os hermanos tende a piorar — pelo menos num primeiro momento.

Ainda que o presidente dos EUA Donald Trump tenha traído Bolsonaro diversas vezes — a última delas ao divulgar via redes sociais que vai sobretaxar o aço e alumínio de Brasil e Argentina por conta de uma suposta manipulação cambial desses países —, o presidente brasileiro não esboça reação alguma contra Washington, limitando-se a dizer que somos os “pobres da história”

Enquanto isso, tudo indica que Fernandez — não por ser de esquerda, mas por ter noção das responsabilidades que seu cargo implica — deve responder às ameaças americanas.

Bolsonaro, portanto, não precisa manter-se no cargo de presidente do bloco por mais seis meses para desmantelá-lo de fato, ainda que a cúpula tenha avançado em temas importantes, sobretudo o comércio de automóveis entre os países membros, com a assinatura de um acordo para regular as trocas entre Brasil e Paraguai no setor — um alívio para os produtores de carros, que sofrem com a queda de demanda do mercado argentino, e um benefício para os paraguaios, cuja indústria de autopeças cresceu nos últimos anos.

Nas entrelinhas e contra os fatos, Bolsonaro parece apostar ainda todas as fichas de sua política externa em Trump e sua continuidade na Casa Branca após 2020.

Nesse cenário, a cruzada contra a esquerda latino-americana continuará impávida e nem mesmo um acordo bilateral de comércio com os EUA — sem a participação dos sócios brasileiros no Mercosul e eventualmente com o sacrifício do acordo entre o bloco e a União Europeia — pode ser descartado, embora esse seja um sonho mais distante depois de Trump ter anunciado a sobretaxa ao aço e alumínio do Brasil e Argentina.

A política externa brasileira, assim, ignora que, sob um democrata, a Casa Branca pode até continuar a defender alguns elementos do trumpismo — resumidos na expressão “América First”. Porém, nesse cenário, a caçada a “comunistas” — quero dizer, esquerdistas — na América Latina vai cessar.

Assim, é provável que Washington, sob o comando de Elizabeth Warren, Joe Biden ou Bernie Sanders — os democratas mais bem posicionados nas primárias americanas —, se aproximem de Argentina e México, isolando, assim, o Brasil bolsonarista até 2022.

Enquanto Bolsonaro recebia os colegas do Mercosul ou seus representantes, o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM-RJ) — para muitos um primeiro-ministro informal diante da inaptidão do presidente para o cargo de chefe de governo (e até mesmo de Estado) — visitou a Argentina e se reuniu com Fernández, que, por sua vez, mandou uma mensagem de paz a Bolsonaro.

Felizmente, para cada Abraham Weintraub — ministro da Educação, que anunciou que o Brasil não vai mais coordenar as políticas da área com os parceiros do Mercosul — querendo acabar com o bloco, temos um político que, à esquerda ou à direita, cumpre a liturgia dos cargos públicos e pensa no longo prazo.

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