
“O privado faz quase tudo melhor que o Estado”. A sentença foi proferida recentemente pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em entrevista ao InfoMoney, e repete o mantra que orienta sua carreira de “gestor”. A máxima neoliberal, contudo, resta vencida – o governador está fora do tempo. O consenso privatista esboroou-se mundo afora, em especial na Europa, em particular no Reino Unido que um dia rendeu-se a Margaret Thatcher.
De início, Tarcísio expõe-se ao ridículo pelos próprios resultados que colhe em São Paulo. A privatização da Sabesp, um dia antevista como vitrine de sua administração, é tudo menos um sucesso. Enquanto 50 ações questionam a venda da estatal na Justiça, a população já conviveu com uma cratera de 18 metros de profundidade aberta na Marginal Tietê por falta de manutenção em um poço de inspeção de esgoto. A Freguesia do Ó também ganhou uma cratera para chamar de sua, devido a vazamento na rede de abastecimento de água. Á época, a Sabesp desculpou-se e interrompeu o fornecimento de água para obras de reparo.
Paralelamente, têm sido reportadas contaminações acima dos padrões em reservatórios, como na represa do Guarapiranga, expondo à saúde pública a riscos graves. A Sabesp foi multada por despejar esgoto na represa. Como resposta, oportunisticamente, lançou um tal programa “Nossa Guarapiranga”, orçado em R$ 2,57 bilhões e com conclusão prevista para 2029.
Em sentido oposto ao privatismo do carioca que assumiu o governo de São Paulo sem nunca ter dado as caras em terras bandeirantes, o Reino Unido dá meia-volta no desmonte público herdado da Dama de Ferro. O sistema de águas e esgoto britânico, totalmente privatizado na era Thatcher, é responsável por uma poluição dos rios que virou escândalo nacional. Empresas do setor acumularam dívidas bilionárias e distribuíram dividendos elevados, ao passo que a infraestrutura encontra-se envelhecida devido a subinvestimento. A reestatização do setor é objeto de uma discussão já avançada.
O movimento de revisão de privatizações britânico, contudo, é mais acelerado no campo ferroviário. O governo iniciou a reestatização gradual de ferrovias, anunciando a criação da estatal Great British Railways. Operadoras privadas estão sendo substituídas à medida que os contratos vencem. Trata-se de um exemplo claro de retorno ao controle público após problemas de eficiência e custo.
Ao afirmar que “o privado faz quase tudo melhor que o Estado”, Tarcísio mostra desconhecer a história do desenvolvimento no Brasil e no mundo. Todo salto importante em direção ao futuro foi impulsionado por apoio estatal. Não bastassem os exemplos máximos de eficiência da Petrobras – ainda estatal, apesar das pressões em contrário – e da Embraer – hoje privatizada, mas dotada de uma base tecnológica erigida com investimento público –, pode ser citada a Emprapa, maior responsável pela pujança agrícola que hoje caracteriza o Brasil.
Nem se fale da Eletrobras ou de Furnas, que viabilizaram a base energética necessária à industrialização — algo que o setor privado, sozinho, não assumiria pelo alto risco e o longo prazo. Tampouco se pode ignorar que todas as pesquisas científicas relevantes, em quaisquer áreas do conhecimento, são realizadas no âmbito das universidades públicas.

A História contradiz a certeza idiota de Tarcísio de Freitas. A internet nasceu no seio da Darpa, a Defense Advanced Research Projects Agency (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa), órgão do governo dos Estados Unidos voltado ao desenvolvimento de tecnologias estratégicas. Nos EUA, o financiamento público também foi crucial para o desenvolvimento de tecnologias como GPS, os semicondutores e a inteligência artificial inicial. Empresas privadas como Apple e Google apoiaram-se em tecnologias originalmente financiadas pelo Estado.
Ainda na terra capturada por Donald Trump, foi a Nasa que impulsionou as pesquisas sobre materiais avançados, eletrônica e sistemas de navegação, com forte efeito de transbordamento para o setor privado. Já na Coreia do Sul, que os neoliberais adoram citar como paraíso da livre iniciativa, o Estado direcionou crédito, protegeu mercados e coordenou conglomerados – os chaebols – nos anos 1970. Empresas como a Samsung prosperaram naquele ambiente.
Por seus atos e palavras, Tarcísio de Freitas posiciona-se entre mal informado e mal intencionado.