Processado por corrupção, ex-foragido, neto de Figueiredo é palestrante no Itamaraty. Por Miguel Enriquez

Paulo Figueiredo Filho e Flávio Bolsonaro

Transformada num bastião da guerra cultural bolsonarista, a Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), do Itamaraty,  vem reunindo nos últimos tempos a “nata”  do pensamento primitivo dos seguidores do mito e de seu guru, o “soi-disant” filósofo Olavo de Carvalho.

Sob a batuta do atual chanceler Ernesto Araújo, multiplicam-se os ciclos de palestras e seminários virtuais voltados à propagação do ideário da extrema direita, com ênfase em temas como o globalismo e o comunismo, o negacionismo em relação à pandemia do coronavírus e a pregação anti-aborto, disfarçada de “direito à vida”.

Como definiu o jornal O Globo, saem os diplomatas e professores e especialistas em política internacional e entram os militantes, fundamentalistas religiosos e teóricos da conspiração, que podem se dedicar à vontade a defender suas posições, sem o risco do contraditório e do controle de qualidade.

Neste ano, marcaram presença nos eventos virtuais da fundação personagens das trevas, como o jornalista Alexandre Garcia, o decano da desinformação, e os blogueiros Allan dos Santos e Bernardo Küster, investigados pelo Supremo Tribunal Federal  por seu papel na propagação em massa de fake news.

Acrescente-se a essa lista outro tipo de investigado. Dessa vez, por corrupção.

É o caso do dublê de empresário e jornalista Paulo Figueiredo Filho, neto do general João Baptista Figueiredo, o último general a ocupar a presidência do Brasil no regime militar.

Amigo pessoal e ex-sócio do presidente americano Donald Trump e seguidor de Olavo de Carvalho, Figueiredo Filho, que esteve foragido da Justiça brasileira durante boa parte do ano passado, é um dos principais implicados na chamada Operação Circus Máximus, do Ministério Público Federal, acusado de um esquema de corrupção de diretores  do Banco de Brasília (BRB).

Entre os delitos contra o sistema financeiro atribuídos a Figueiredo Filho, o MPF destacou o pagamento de propinas, num total de R$ 20 milhões, aos dirigentes do BRB em troca de investimentos de recursos de fundos de pensão no Trump Hotel, localizado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, no valor de US$ 120 milhões, tocado por investidores brasileiros abrigados na LSH Barra Empreendimentos Imobiliários (entre eles, Figueiredo Filho), que seria operado pelo grupo do presidente americano.

Paulo Figueiredo Filho e o ex-sócio Trump

Como não é bobo, nem nada,  o velho Donald sentiu o cheiro de queimado e se desligou do projeto antes de estourar o escândalo.

Deflagrada em janeiro de 2019, a Circus Maximus expediu um pedido de prisão de Figueiredo Filho, que à época já residia em Miami, onde se encontra até hoje.

Foragido, o cidadão de bem bolsonarista só foi preso no fim de julho do mesmo ano pelas autoridades americanas por que havia uma alerta da Interpol em seu nome.

No entanto, ele ficou menos de três meses atrás das grades: no dia 22 de outubro, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) substituiu a prisão preventiva por medidas cautelares.

Não por acaso, a capivara cabeluda do neto de Figueiredo, que já ocupou postos de destaque em entidades empresariais, como uma diretoria do Instituto Liberal, do Rio de Janeiro, e trabalhou na Secretaria de Turismo carioca na gestão do prefeito Eduardo Paes, parece não ter afetado seu livre trânsito nas hostes bolsonaristas. 

Ao contrário: Figueiredo Filho foi uma das principais atrações do seminário virtual “A conjuntura internacional no pós-coronavirus”, promovido pela Fundação Alexandre de Gusmão, na primeira semana de setembro passado, em que falou sobre a “Ascensão e queda da China”, uma xaropada insossa e claudicante, com a qual pretendeu mostrar como os Estados Unidos, sob um segundo governo Trump, colocarão o país do presidente Xi Jinping no seu devido lugar.

Bolsotrumpista raiz, o ex-foragido não deixou de identificar os culpados pela indesejada transformação na China numa superpotência: o Partido Democrata, que recentemente ele batizou de “Partido terrorista” e, é claro, o ex-presidente Barack Obama, que teria sido  incapaz de reagir ao “alerta vermelho” representado pelo crescimento excepcional da China e não agiu para impedi-la de atingir o patamar econômico e bélico atual.